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A Bíblia “aceita” tudo? O problema da leitura de Fábio Porchat

Recentemente, Fábio Porchat voltou a repercutir ao comentar passagens bíblicas em tom de deboche e indignação, como se a simples presença de morte, estupro, incesto e escravidão no texto sagrado fosse prova suficiente de que a Bíblia “aceita” tais práticas. O problema não está em criticar a Bíblia. O problema está em criticá-la mal.

 

Há uma diferença básica, elementar, entre descrever e aprovar. A Bíblia descreve inúmeros episódios de violência, degradação moral e pecado humano. Mas descrever não é endossar. Quando um jornal noticia um crime, ele não está defendendo o crime. Apenas relata um fato. A Escritura faz o mesmo em muitos de seus relatos: expõe a decadência humana sem transformar isso em modelo moral.

 

É justamente aí que a crítica de Porchat falha. Ao tratar narrativas bíblicas como se fossem recomendações éticas, ele confunde registro com prescrição, fato com mandamento, narrativa com doutrina. E esse tipo de leitura não é corajosa nem esclarecedora. É só simplista.

 

Dizer que “tem morte na Bíblia”, “tem incesto na Bíblia” ou “tem estupro na Bíblia” não resolve discussão alguma. A pergunta séria é outra: esses atos aparecem como exemplos a serem seguidos ou como pecados sendo narrados? Sem essa distinção, qualquer interpretação vira caricatura.

 

Além disso, há um erro frequente em críticas desse tipo: o anacronismo. Julga-se o mundo do Antigo Oriente, com seus contextos políticos, jurídicos e sociais específicos, como se ele tivesse surgido dentro da modernidade liberal ocidental. Não se trata de blindar o texto bíblico, mas de exigir honestidade intelectual. Uma coisa é discordar da Bíblia depois de entendê-la; outra é atacar uma caricatura dela.

 

Quando a Bíblia fala de juízo, por exemplo, ela está trabalhando com uma estrutura moral em que existem certo e errado, justiça e culpa, responsabilidade e consequência. E isso levanta uma questão incômoda: quando Porchat acusa o texto bíblico de injusto, ele mesmo está apelando para uma régua moral objetiva. Mas de onde vem essa régua? Se não há um padrão moral superior à vontade humana, com que autoridade alguém fala em injustiça real, e não apenas em preferência pessoal?

 

Outro exemplo clássico de distorção é o caso de Ló e suas filhas. A leitura superficial sugere que a Bíblia estaria legitimando aquele episódio. Mas o texto mostra exatamente o oposto: uma espiral de degradação moral. Ló se aproxima de Sodoma gradualmente, assimila seu ambiente corrompido, perde o senso moral e vê sua família desabar em tragédia. Nada ali é apresentado como modelo. Tudo aponta para decadência, ruína e consequência.

 

Esse é um ponto que muita gente parece não perceber: a Bíblia não embeleza seus personagens. Ela não esconde suas misérias. Se quisesse fabricar heróis perfeitos, apagaria esses episódios. Mas não apaga. Mostra-os porque seu foco não é exaltar o homem, mas revelar sua queda e sua necessidade de redenção.

 

O mesmo raciocínio vale para a escravidão, tema que Porchat e muitos outros costumam citar como evidência de suposta imoralidade bíblica. Mais uma vez, a pergunta correta é: de que escravidão estamos falando? Confundir a servidão por dívida do mundo antigo com a escravidão racial moderna, marcada por tráfico negreiro, racismo estrutural e desumanização sistemática, é um erro histórico grosseiro. Não se trata de dizer que a servidão antiga era moralmente ideal, mas de reconhecer que são fenômenos distintos.

 

A Bíblia não cria a escravidão. Ela fala a um mundo em que essa prática já existia e, dentro dessa realidade, estabelece limites, regula abusos e, no desenvolvimento posterior da revelação, lança princípios que corroem essa estrutura de dentro para fora. Não por acaso, o Novo Testamento afirma que, em Cristo, não há escravo nem livre, porque todos são um. Isso não combina com qualquer visão permanente de inferioridade humana.

 

No fim, a crítica de Porchat repete o padrão de muitos comentadores contemporâneos: pega temas difíceis, arranca-os do contexto, reduz tudo a cortes de efeito e chama isso de análise. Mas isso não é análise. É simplificação. E simplificação, quando se pretende crítica séria, costuma ser só outro nome para preguiça intelectual.

 

Ninguém é obrigado a acreditar na Bíblia. Ninguém é obrigado a aceitá-la como revelação divina. Mas quem decide criticá-la deveria, ao menos, criticá-la pelo que ela realmente ensina. Não por uma versão resumida, debochada e descontextualizada feita para caber em poucos minutos de entretenimento.

 

Fábio Porchat pode ser um excelente humorista. Mas, quando o assunto é interpretação bíblica, humor e exegese não são a mesma coisa. E talvez o mínimo que se poderia esperar antes de atacar um texto milenar seja estudá-lo com um pouco mais de seriedade.

 


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