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A crescente desvalorização do ministério pastoral

EM MEIO ÀS IGREJAS BATISTAS FUNDAMENTALISTAS NO BRASIL


Os muitos assuntos pertinentes a nosso tempo, da pandemia as ameaças de guerra, tem ocupado generoso espaço não somente nas páginas eletrônicas e nos noticiários televisivos, mas também na mente do povo chamado a proclamar “… as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2.9). Creio ser esta uma das principais razões pela qual um fato que deveria ocupar lugar primordial entre os assuntos cristãos ser relegado a um plano muito inferior a real importância que possui. Não é tolerável que o crescente déficit pastoral que as igrejas batistas fundamentalistas têm experimentado, e que tem se acentuado neste novo milênio, seja assunto de tão pouca relevância. Infelizmente, a escassez de pastores exercendo seu ministério é apenas uma das múltiplas facetas da atual condição espiritual da igreja de Cristo em nossos dias e em nosso país, a qual deve ser razão de uma séria inquirição por parte de igrejas e líderes cristãos.


Uma inquirição sincera a respeito deste tema deve avaliar com seriedade o pensamento que considera que uma vez que é ofício exclusivo de Deus chamar homens ao pastorado, uma verdade bíblica indiscutível, então a razão plausível para a escassez de pastores deve obrigatoriamente se encontrar no fato que Deus não está, por uma série de razões, chamando homens em número suficiente a fim de que pastoreiem seu rebanho. Se faz necessário que examinemos este pensamento de forma bíblica. Ao tratar da unidade do corpo de Cristo e de suas necessidades no capítulo 4 da epístola aos efésios, o apóstolo Paulo nos aponta a fonte da qual procedem os homens concedidos a igreja como dons a fim de edifica-la, dizendo “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, ” (Efésios 4.11). A referência a “ele mesmo” é a pessoa de Jesus Cristo, que em sua exclusiva autoridade como cabeça da igreja concede homens dons a fim de servirem e edificarem seu rebanho. Notemos que há duas classes de homens dons concedidos a igreja após o fim do ministério dos apóstolos e citados por Paulo nestes versos, os “evangelistas” e os “pastores mestres”, bem identificados pelo apóstolo em sua primeira epístola aos coríntios ao aplicar esta verdade a ele e a Apolo ao dizer que “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento” (1 Coríntios 3.6). Paulo o plantador, Apolo o que nutre para o crescimento, especificando e diferenciando a capacitação concedida pelo Espírito Santo a homens chamados a implantar novas igreja e a homens chamados a edificá-las. Em suma, estaria o cabeça da igreja ministrando de forma deficiente as necessidades de sua obra? A real questão não é porque falta um número suficiente de homens chamados ao ministério pastoral em nossos dias, mas sim o que temos feito de forma que homens chamados por Cristo ao ministério pastoral sejam desviados de sua verdadeira função.


A desvalorização do ministério pastoral como prática das igrejas batistas fundamentalistas pode ser vista no fluxo de recursos destinados a manter e expandir a obra do Senhor. É reconhecível que o destino de uma nação ou mesmo de uma pessoa em particular pode ser previsto observando o modo como suas posses são investidas, assim como aquilo que deixa de receber os recursos necessários. É louvável o investimento que as igrejas batistas fundamentalistas têm destinado ao sustento de missionários implantadores de igrejas e a construção de novos templos, porém, na mão inversa de tais investimentos, é visível como a preparação continuada de homens chamados ao ministério pastoral e as ofertas destinadas a manutenção e ampliação de seminários e institutos bíblicos não seguem o mesmo fluxo. A consequência deste fato é que nossos dias tem contemplado a expansão do número de templos, sem que tenhamos pelo menos o mesmo número de homens de Deus preparados para assumi-los. O apelo a que cristãos se disponham a investir no sustento de missionários e na construção de templos é inegavelmente importante, porém o mesmo fervor e disposição não é visível quando se trata de enviar futuros pastores aos seminários, de investir na capacitação continuada de pastores mestres e de institutos bíblicos cada vez em menor número em nosso país. A triste realidade que as igrejas batistas fundamentalistas no Brasil enfrentam hoje já era previsível a anos passados.


O deficiente investimento no ministério pastoral tem igualmente conduzido à obra de Deus em nosso país a um fenômeno ao qual temos dificuldade de reconhecer como danoso. É cada vez maior o número de homens chamados ao ministério pastoral e que exerceram por anos o pastorado em igrejas batistas fundamentalistas que estão, pelas mais variadas razões, deixando o pastorado de uma igreja a fim de assumir um posto como missionários implantadores em outros locais. Pode ser isso algo danoso? Sim. Em primeiro lugar é importante que reconheçamos que a capacitação concedida pelo Espírito Santo aos homens chamados a estes diferentes ministérios não é a mesma, o que pode ser observado no simples fato de suas funções serem citadas como distintas por Paulo “E ele mesmo deu uns (…) para evangelistas, e outros para pastores e doutores, ” (Efésios 4.11). Esta verdade nos leva a reconhecer que um missionário implantador de igrejas poderá pastoreá-la por algum tempo, porém logo as necessidades espirituais da própria igreja exigirão que um pastor mestre assume seu lugar a fim de dar continuidade ao desenvolvimento dos salvos em seus ministérios, de modo que o objetivo determinado por Deus seja alcançado, como revelado na epístola aos efésios “Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” (Efésios 4.12). Da mesma forma um pastor mestre enfrentará limitações ao tentar exercer o ministério de implantação de igrejas, uma vez que seus dons não se encaixam nas necessidades que encontrará. O encorajamento a que pastores mestres deixem suas funções na igreja a fim de exercerem uma função a qual não foram chamados nem capacitados, não somente possui a perigosa capacidade de desencoraja-los na obra do Senhor como deixa descoberto seu posto, que não poderá ser ocupado por outro, que não é um pastor mestre. É preciso aqui alertar que de forma alguma esta verdade deve gerar rivalidade ou desacordo entre os obreiros do Senhor, mas sim a compreensão de que suas funções se complementam, reconhecendo a real fonte do trabalho cristão bem-sucedido “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento” (1 Coríntios 3.6).


Por fim, uma visão pastoral não encontrada na Bíblia tem igualmente contribuído para a desvalorização do ministério pastoral entre as igrejas batistas fundamentalistas no Brasil. Convencionou-se reconhecer pastores que trabalhem em uma mesma igreja pela denominação “primeiro homem” e “segundo homem”, diferenciando assim o ministério pastoral daqueles que demonstram possuir as qualidades necessárias a liderança e aqueles que devem exercer funções subalternas, o que invariavelmente acabará por limitar a experiência e desenvolvimento do “segundo homem” apenas a algumas funções. Além de estranha às Escrituras, tal diferenciação tende a desprezar o processo pelo qual homens chamados ao ministério pastoral são treinados e preparados a exercerem suas funções pastorais. Tal processo é descrito de forma abundante nas Escrituras, de onde é possível retirar os princípios pelos quais deve ser praticado, visível no relacionamento entre o grande líder Moisés e Josué, entre o profeta Elias e Elizeu e entre o apóstolo Paulo e Timóteo, a quem ele encorajou “Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e no amor que há em Cristo Jesus” (2 Timóteo 1.13). Homens chamados ao ministério pastoral devem ser amadurecidos por meio de um processo contínuo de discipulado liderado por um pastor experiente e disposto a dar de si mesmo a fim de que este alcance um nível de maturidade suficiente para que também possa liderar o povo de Deus.


Há esperança para que o atual quadro de escassez de pastores em meio as igrejas batistas fundamentalistas em nosso país sejam mudadas? Sim, há esperança. Para que isto ocorra é necessário que igrejas e líderes invistam na capacitação pastoral com o mesmo fervor que investem na obra missionária, reconhecendo a necessidade de investimento financeiro constante em seminários e institutos bíblicos, assim como na capacitação continuada de seus pastores. Da mesma forma, é preciso que os pastores mestres que escolheram desenvolver outros ministérios que não o pastoreio do rebanho, voltem a seus postos imediatamente, o que em muito ajudará no fortalecimento de nossas igrejas. Por fim, é responsabilidade dos pastores que estão no ministério pastoral investir seu tempo no treinamento e encorajamento de homens chamados ao pastorado. Se cada um dos pastores ativos assumirem a responsabilidade de formar outro pastor capacitado, o déficit de pastores em meio as igrejas batistas fundamentalistas será drasticamente reduzido.


Que o Senhor nos conceda sabedoria.








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