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Brasil: A segunda maior força missionária do mundo

Como o Brasil deixou de ser campo missionário para se tornar celeiro de missionários globais.

 

Durante séculos, o Brasil foi conhecido como uma nação receptora de missões cristãs. Missionários europeus e, posteriormente, estadunidenses chegaram ao país com o propósito de evangelização, plantação de igrejas, educação e assistência social. Hoje, no entanto, esse cenário se transformou profundamente: o Brasil passou a ocupar posição de destaque no envio missionário mundial, sendo reconhecido como o segundo país que mais envia missionários transculturais ao exterior, atrás apenas dos Estados Unidos.

 

Segundo dados do relatório Status of the Great Commission, do movimento Lausanne Movement (Movimento de Lausanne), o Brasil consolidou-se como a segunda maior força missionária do planeta, com cerca de 38 mil a 40 mil missionários atuando em diversas nações, enquanto os Estados Unidos permanecem na liderança com aproximadamente 135 mil enviados. O relatório também aponta que, de cada 100 cristãos no mundo, 8 estão no Brasil, evidenciando a força do cristianismo brasileiro no cenário global.


 

De campo missionário a potência enviadora:

Um breve olhar histórico dos últimos 50 anos

 

Décadas de 1970 e 1980: o despertar missionário

 

Até meados do século XX, o Brasil era predominantemente um receptor de missionários estrangeiros. Igrejas históricas e missões protestantes vindas da Europa e dos Estados Unidos estabeleceram forte presença no país.

 

Foi a partir da década de 1970 que começou a surgir uma nova consciência missionária nacional. Congressos missionários, seminários teológicos e movimentos evangelísticos despertaram a visão de que o Brasil também deveria cumprir seu papel no envio transcultural.

 

A influência do Congresso de Lausanne de 1974, realizado em Lausanne, liderado por Billy Graham e John Stott, teve impacto profundo sobre líderes brasileiros, fortalecendo a ideia da responsabilidade missionária global da igreja.

 

Décadas de 1990 e 2000: consolidação e crescimento

 

Com a expansão das igrejas evangélicas tradicionais e pentecostais no Brasil, especialmente nas décadas de 1990 e 2000, o envio missionário ganhou forte impulso.

 

O crescimento numérico das igrejas gerou também maior capacidade financeira, institucional e vocacional para sustentar projetos missionários internacionais.

 

Nesse período, surgiram e se fortaleceram diversas agências missionárias brasileiras, tanto denominacionais, quanto não denominacionais, além de conferências, escolas de missões e movimentos voltados ao preparo transcultural.

 

O Brasil começou a enviar missionários não apenas para a América Latina e África, mas também para a Europa secularizada, o Oriente Médio, a Ásia e regiões fechadas ao cristianismo.

 

Anos 2010 até hoje: o Brasil no protagonismo global

 

Nos últimos quinze anos, o Brasil consolidou-se definitivamente como potência missionária.

 

A emissora cristã CBN News destacou recentemente esse fenômeno em reportagem internacional, mostrando o protagonismo brasileiro em hospitais, vilas remotas, centros urbanos estratégicos e projetos sociais em regiões de difícil acesso.

 

O teólogo Todd Johnson afirmou que muitos desconhecem a amplitude da atuação missionária brasileira: “Eles têm levado a mensagem a alguns dos lugares mais difíceis do planeta.

 

Esse novo protagonismo ocorre em um contexto maior: a mudança do eixo do cristianismo mundial.

 

Historicamente centrado na Europa e América do Norte, o cristianismo agora encontra seu principal dinamismo no chamado Sul Global - especialmente América Latina e África Subsaariana.

 

O novo mapa do cristianismo mundial:

O declínio europeu e o crescimento do Sul Global

 

Um dos dados mais impactantes do relatório Lausanne é que a Europa Ocidental, por séculos o principal centro missionário do mundo, está fora da lista dos dez principais países cristãos pela primeira vez na história moderna.

 

Enquanto isso, o crescimento evangélico e pentecostal no Brasil e na África Subsaariana redefine o mapa cristão global.

 

O relatório mostra que:

  • os Estados Unidos continuam como principal centro financeiro e institucional do protestantismo;

  • porém, sua população evangélica está em declínio;

  • a Europa enfrenta envelhecimento religioso;

  • os jovens europeus e norte-americanos frequentam menos cultos, oram menos e se identificam menos como cristãos.

 

Se essa tendência continuar, o cristianismo evangélico nessas regiões poderá se tornar, progressivamente, uma religião predominantemente envelhecida.

 

 

Para onde vão os missionários brasileiros?

África, Europa, Ásia e Oriente Médio

 

Os missionários brasileiros atuam fortemente em:

  • África Subsaariana

  • Europa Ocidental

  • Sul e Sudeste Asiático

  • Oriente Médio

  • Países islâmicos

  • Regiões budistas e hinduístas

 

Além da evangelização, desenvolvem ações em:

  • ajuda humanitária

  • educação

  • esporte

  • saúde

  • empreendedorismo social

  • plantação de igrejas

  • discipulado

  • assistência comunitária

 

Entendemos que boa parte do crescimento do contingente missionário do Brasil tem a ver com a diversificação da forma de sustento financeiro dos missionários. Atualmente há um impulso de crescimento dos “Fazedores de Tendas” e de “Empresas Missionárias”.

 

Basicamente um missionário “Fazedor de Tendas” é um crente com vocação missionária que utiliza sua profissão secular para se sustentar financeiramente no campo, permitindo o evangelismo em locais de acesso restrito ou onde o sustento tradicional não é alcançado. Inspirado no apóstolo Paulo (Atos 18.3), este modelo alia trabalho profissional à obra missionária, atuando como ponte cultural.

 

O grande desafio: os povos não alcançados.

A missão continua inacabada e com poucos trabalhadores.

 

Apesar do grande número de missionários enviados, o relatório aponta um dado preocupante: Dos cerca de 450 mil missionários cristãos no mundo, aproximadamente 97% atuam em regiões onde já existe acesso ao evangelho.

 

Isso significa que apenas uma pequena parcela de 3% trabalha entre os chamados “povos não alcançados”, especialmente localizados no Sul da Ásia.

 

Os maiores desafios concentram-se em países como:

 

  • Índia

  • Paquistão

  • Tailândia

 

Na Índia, o nacionalismo hindu dificulta a presença de missionários que geralmente não têm permissão para pregar diretamente aos nacionais. No Paquistão, leis severas sobre blasfêmia colocam cristãos sob risco de prisão e até pena de morte. Na Tailândia, onde mais de 90% da população é budista, há forte resistência cultural à conversão.

 

Missões na Tailândia: um exemplo brasileiro

Colocar os óculos do povo

 

Um casal missionário brasileiro que atua há nove anos na Tailândia (Não vamos revelar os nomes), utiliza o esporte como ferramenta missionária por meio do ministério.

 

A esposa do casal resume o princípio central da missão transcultural: “O missionário precisa se aprofundar na cultura local... não é só falar a língua, é tentar entender como eles enxergam o mundo.

 

Esse modelo de aproximação respeitosa e contextualizada tem sido uma das marcas do avanço missionário brasileiro que tem por formação, respeitar as culturas.

 

O futuro das missões brasileiras:

Muito potencial, muitos desafios.

 

Apesar do destaque mundial, pesquisadores apontam que apenas uma pequena porcentagem das igrejas brasileiras está realmente treinando, enviando e sustentando missionários.

 

Isso mostra que há enorme potencial ainda não explorado.

 

“Fazedores de Tendas”

 

Muitos novos missionários estão adotando o modelo de “Fazedores de Tendas”, métodos que começa a crescer devido à crescente falta de visão das lideranças das igrejas de modo geral. Pastores têm deixado de desafiar os membros de suas congregações no que se relaciona ao levantamento de sustento para investir em missões o que dificulta para os missionários a captação de apoio financeiro.

 

Assim, a meta de muitas agências está em preparar missionários “Fazedores de Tendas”, que vão para o campo missionário com recursos próprios oriundos de sua profissão. Esse modelo também é bíblico e inspira-se das falas do apóstolo Paulo em diversas passagens de sua vida como missionário.

 

Em Atos 18.1-4, temos o relato principal onde Paulo conhece, em Corinto, Áquila e Priscila, casal com quem compartilha a profissão e o sustento enquanto pregava em Corinto. "Depois disto, partiu Paulo de Atenas e chegou a Corinto. E, achando um certo judeu por nome Áquila... e Priscila, sua mulher... se ajuntou com eles, e, como era do mesmo ofício, ficou com eles, e trabalhava; pois tinham por ofício fazer tendas." (Atos 18:1-3).

 

Em Atos 20.33-35 na despedida dos anciãos de Éfeso, Paulo discursa e lembra aos líderes da igreja que seu trabalho manual não apenas o sustentou, mas ajudou sua equipe e os necessitados: "Vós mesmos sabeis que estas mãos me serviram a mim e aos que estavam comigo em minhas necessidades. Em tudo vos dei o exemplo de que assim trabalhando é necessário socorrer os necessitados..." (Atos 20.34-35)

 

Em outra passagem, falando do trabalho em Tessalônica, Paulo lembra àquela igreja sobre o esforço que fez para não ser um peso financeiro para eles enquanto pregava. "Porque bem vos lembrais, irmãos, do nosso trabalho e fadiga; pois, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós, vos pregamos o evangelho de Deus." (1 Tessalonicenses 2.9)

 

Ainda em sua fala aos tessalonicenses Paulo mostra ser um exemplo de diligência ao reafirmar que o seu trabalho (secular) foi uma escolha para dar exemplo, mesmo tendo o direito de receber sustento: "...nem comemos de graça o pão de ninguém, mas com trabalho e fadiga, lutando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não porque não tivéssemos esse direito, mas para vos dar em nós mesmos exemplo, para nos imitardes." (2 Tessalonicenses 3:8-9).

 

Para completar, ao listar as dificuldades do seu ministério, Paulo menciona o trabalho físico como parte de sua rotina: "...e nos afadigamos, trabalhando com nossas próprias mãos; somos injuriados, e bendizemos; somos perseguidos, e sofremos;" (1 Coríntios 4.12).

 

“Sustento por Parceria”

 

Algumas agências missionárias também estão permitindo e até incentivando seus missionários a mesclarem a captação de sustento entre igrejas locais e pessoas individualmente, em parceria. Parceiros de ministério que ajudam financeiramente, como se estivessem indo com eles ao campo missionário.


 

De certa forma, esse modelo não é uma ideia nova. Ele foi adotado pelo pastor Batista William Carey no século XVIII, quando foi para a Índia como missionário (1793) com sua esposa Dorothy, filhos e seu companheiro missionário John Thomas. A Sociedade Missionária Batista previa um apoio financeiro bem limitado que não seria suficiente para sustento integral.

 

No seu pequeno livro, "Uma Investigação sobre as Obrigações dos Cristãos de Usar Meios para a Conversão dos Pagãos" ("An Enquiry into the Obligations of Christians to Use Means for the Conversion of the Pagans"), escrito em 1792, Carey já defendia que famílias de missionários poderiam levar um grupo de outras famílias com eles para o campo.

 

Enquanto essas famílias trabalhavam para suprir o sustento próprio, adotavam a família de missionários que se dedicavam à obra de evangelização. Nascia a ideia de missões autossustentáveis no “Acordo de Serampore”, quando Carey e outros missionários passaram a viver e trabalhar em comunidade.

 

Diante da necessidade, o próprio Carey aceitou o trabalho de superintendente de uma fábrica em Bengala. Isso lhe deu sustento para manter sua família e ainda recursos para investir na missão. Em 1794 ele escreveu à Sociedade Missionária informando que já não precisava mais de ajuda financeira pessoal.

 

“Empresa Missionária”

 

O conceito de sustentar missões através de empresas missionárias, frequentemente chamado de "Negócios como Missão", refere-se à utilização de empreendimentos comerciais legítimos para financiar atividades missionárias e viabilizar a presença de missionários em locais de difícil acesso. 

 

Este modelo tem, pelo menos três maneiras para incremento:

  • O próprio missionário se torna o empreendedor, vai ao campo como empresário e se sustenta com o trabalho próprio e da família. Nesse caso pouco difere do “fazedor de Tendas”.

  • Um empresário vai ao campo e abre o negócio, colocando o missionário como “funcionário” para que ele tenha condições de fazer a obra sem a necessidade de dedicar-se exclusivamente à empresa.

  • A terceira maneira á a empresa adotar um missionário, enviando-o ao campo e dando-lhe o sustento como um representante para pesquisar o campo. Nesses casos, pode ser necessário algumas pequenas empresas se juntarem para manter o missionário com ofertas e pode, inclusive, adotar em parceria com uma agência missionária através da qual essas empresas enviam o apoio.

 

Nas duas primeiras maneiras, o modelo funciona bem para o trabalho missionário em locais restritos, como países que não emitem vistos para missionários tradicionais, mas permitem empresas, como escolas, consultorias, comércio e indústrias.

 

Em suma, as empresas missionárias não são apenas uma forma de financiar, mas uma estratégia integral de atuação que une o "fazer negócios" com o "fazer missões", cumprindo o chamado de maneira contextualizada.

 

OBSERVAÇÃO:

 

Também o conceito de “Empresa Missionária” não é uma estratégia nova. Os morávios, no século XVIII, foram notáveis usando a estratégia de "negócios como missão". A abordagem por eles adotada integrava o trabalho prático com o chamado missionário, mostrando que a fé cristã não é apenas para a vida futura, mas para a vida cotidiana. 

 

Missionários morávios enviados ao Suriname em 1758 desenvolveram "comércios missionários", criando negócios locais para financiar suas atividades. Os missionários, muitas vezes, eram artesãos ou comerciantes qualificados que se sustentavam através de seus ofícios, integrando-se à economia local.

A dedicação de alguns era tamanha que chegaram a vender a sua própria liberdade, trabalhando como escravos no Caribe para evangelizar, financiando sua viagem com o dinheiro obtido dessa forma.

 

Eles acreditavam no que ensina o Novo Testamento, que a evangelização é dever de toda a igreja, tanto dos vocacionados a irem, quanto dos demais que, a retaguarda devem ter a mesma responsabilidade e compromisso.

 

E nós, Batistas Independentes, Regulares e Bíblicos?


 

De certa forma, comparado com o todo em nosso país, somos uma pequena parcela a compor essa grande obra missionária de alcance mundial. Mas também crescemos.

 

Entre os grupos Batistas Independentes (são várias missões), Batistas Regulares e Batistas Bíblicos, os esforços e crescimento acompanham o todo. Há missionários tanto dentro do país, quanto no exterior e, apesar das dificuldades financeiras e logísticas, observamos crescimento.

 

Aqui no Jornal de Apoio temos acompanhado e divulgado esses avanços através de várias agências missionárias. De modo especial acompanho os trabalhos da Associação Missionária Internacional que está crescendo na aceitação de projetos além fronteira. No momento são 11 projetos no exterior em 8 países na América do Sul (6), África (2) e Ásia (3). No Brasil são 37 projetos em 12 estados, sendo dois transculturais.  

 

Estamos fazendo um levantamento entre todas as agências missionárias para vermos quantos projetos alcançam outras nações através da missões que temos catalogadas. O que sabemos, com certeza, é que precisamos continuar crescendo dentro do Brasil, para podermos fazer mais pelo mundo exterior.

 

Conclusão

 

É importante para cada um de nós, entender que o Brasil deixou, definitivamente, de ser apenas um campo de missão para se tornar uma das maiores forças missionárias da história contemporânea da Igreja de Cristo.

 

De nação evangelizada passamos a nação enviadora. O Brasil hoje ocupa posição central no cumprimento da chamada Grande Comissão e, para nós que fazemos parte dessa obra, devemos sentir-nos privilegiados.

 

Mais do que números, isso representa uma mudança histórica no papel espiritual do Brasil diante das nações.

 

Se antes recebíamos missionários, agora enviamos.

 

Se antes éramos terra de semeadura, hoje somos celeiro.

 

E talvez essa seja uma das mais importantes transformações religiosas da história brasileira moderna.

 

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Fontes Consultadas

Relatório Status of the Great Commission - Lausanne Movement

Reportagem internacional - CBN News

Entrevistas publicadas por Gazeta do Povo

Pesquisas do Gordon-Conwell Theological Seminary

Dados missionários internacionais de agências evangélicas globais.

 

 

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