Das águas do Sul, aos rios da Amazônia: A última viagem da missionária Iloni Leuck
- Edição JA

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Manaus, Amazonas


Foi em um domingo silencioso na capital amazonense que as águas barrentas e imensas do Rio Solimões pareceram correr um pouco mais devagar. O relógio marcava por volta das 21h de uma noite que parecia comum. A missionária Iloni Juraci Leuck, veterana do Seminário Batista Regular do Sul e da Missão Batista Brasileira Fundamentalista (MBBF), membro da Igreja Batista Esperança em São Paulo, SP, desde 16 de outubro de 1994, mesmo ano em que foi enviada para o campo missionário em São Paulo de Olivença, AM. Ao longo desses 32 anos, a IBE tem participado do seu sustento e também apoiando projetos especiais para compras e reformas dos locais. Nas palvras do Pr. Sérgio Moura, pastor titular da IBE, "Iloni sempre foi uma serva fiel do Senhor". A IBE tem sido uma referência no apoio à obra missionária no Brasil e no exterior, apoiando atualmente, 104 projetos.
Naquela noite calma de domingo, dia 23 de fevereiro de 2026, Iloni voltava para casa com o coração, sem dúvida, cheio das canções e da Palavra que acabara de ouvir. Ao atravessar a rua, no entanto, a trajetória de mais de quatro décadas de missões foi abruptamente interrompida por um atropelamento. Ela fechou seus olhos para esta vida aqui na terra ao ser atendida no Hospital. No milésimo de segundo seguinte, ela os abriu na eternidade.

Mais do que uma nota de pesar, sua partida é o ponto de exclamação em um dos capítulos mais bonitos de dedicação, coragem e amor aos povos do Brasil.
Para entender a imensidão dessa mulher de estatura comum e fé gigantesca, é preciso cruzar o mapa do país.

A história que terminou no calor úmido da floresta amazônica começou no clima frio de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul. Em 1977, alcançada por um simples folheto evangelístico, ela desceu às águas do batistério da Igreja Batista Maranata. Em 1981, sua vocação já pulsava forte ao integrar a primeira turma de formandos do Seminário Batista Regular do Sul, em Curitiba.
As sementes na selva de pedra
Antes de enfrentar a vastidão dos rios amazônicos, Iloni deixou marcas profundas no asfalto de São Paulo. O Pr. Élcio, da Igreja Batista Regular de Diadema, recorda essa época. Ela chegou à igreja ainda sob a liderança do saudoso Pr. Hernani Herman que também foi de sua igreja em Novo Hamburgo.

A entrega de Iloni nunca foi pela metade; ela chegou a morar nas dependências da igreja. Trabalhava incansavelmente como professora de crianças e atuava como missionária nas ruas de Diadema, Piraporinha e regiões vizinhas, sempre dedicada à visitação e ao cuidado com os membros. Após um período servindo também na Vila Mariana, o chamado para o Norte bateu à sua porta.
O amor pelo povo Ticuna
Foi em 1994 que seu coração encontrou seu destino final: o Amazonas. Apoiada pela MBBF, Iloni fez de São Paulo de Olivença, no Alto Solimões, a sua trincheira de esperança. Ali, cruzou o caminho do povo Ticuna.
"Ela era uma missionária que não tinha medo de nada. Enfrentava o desafio mesmo sem saber a nossa língua, e ganhou muitas pessoas para Cristo", relembra, emocionado, o Pr. Rober Guerreiro, pastor da etnia Ticuna.

ESTE MAPA MOSTRA A REGIÃO AMAZÔNICA AONDE A ILONI SERVIU POR MUITOS ANOS, ESPECIALMENTE EM SÃO PAULO DE OLIVENÇA E NAS ALDEIAS DOS TICUNAS NAQUELA REGIÃO.
O testemunho de Rober ilustra quem era Iloni. Ao notar o chamado de Deus naquele jovem indígena, a missionária não o ajudou apenas com palavras. Ela arcou com as passagens e despesas para que ele viajasse ao Sul, fizesse o Ensino Médio e, posteriormente, entrasse no seminário. "Ela nunca me deixou desamparado. Deus supriu minhas necessidades através dela", conta o pastor, que a chama de "minha mãe espiritual". Mesmo de longe nos últimos anos, ela havia acabado de enviar, há um mês, uma oferta pessoal para ajudar na construção do Projeto Boca do Mato, uma escolinha de música na aldeia Santa Inês.
"Morrerei trabalhando"
Nos últimos anos, já residindo em Manaus, auxiliando uma congregação da Igreja Batista Regular da Graça, do Pr. Wellington Cartaxo, no bairro de Águas Claras, a saúde começou a dar sinais de fragilidade, mas Iloni não parava. Evangelizava de casa em casa, liderava o "Clube Bíblico" com crianças e orava incessantemente — apenas três dias antes de partir, pediu orações ao Pr. Rober para que Deus salvasse seus irmãos de sangue no Sul.

Durante a sua última visita a São Paulo, o Pr. Élcio conta que uma irmã fez a pergunta que muitos fariam a uma mulher com sua idade e histórico: "Por que você não se aposenta?" A resposta de Iloni, hoje, soa como uma promessa cumprida: "Morrerei trabalhando para o meu Senhor Jesus." E assim ela fez. Estava voltando da Casa do Senhor, no dia do Senhor, após cultuar o seu Salvador, quando sofreu o acidente e, então no hospital, “partindo para estar com Cristo, o que é muito melhor”.
Um conforto para os que ficam
Para o Pr. Wellington Cartaxo, para o Pr. Isac Mendes da congregação onde Iloni servia, para o Pr. Rober e os indígenas Ticunas, para o Pr. Élcio, para a liderança da Igreja Batista Esperança, onde era membro e da MBBF e para as inúmeras crianças e mulheres que ela discipulou, a dor do domingo à noite é profunda, mas fica a lembrança de uma vida que foi derramada como oferta. A dor da saudade é o preço que pagamos por termos conhecido pessoas extraordinárias.

ILONI JURACI LEUCK
09/11/1951 - 23/02/2026
A maior alegria da vida de Iloni nunca foi a Amazônia em si, mas o Senhor que a enviou para lá. Como bem resumiu o Pr. Élcio: "Combateu o bom combate, acabou a carreira e guardou a fé. Hoje está com Jesus."
O acidente não roubou a vida de Iloni; ela já havia entregado essa vida a Cristo décadas atrás. O cansaço acabou. As dores cessaram. A missionária finalmente ancorou no porto seguro que buscou a vida inteira. Aos que choram a sua ausência, que o consolo venha da mesma certeza inabalável que a fez cruzar o Brasil, a esperança viva registrada no Salmo 17:15: "Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar." Iloni Leuck despertou na glória. E, finalmente, viu face a face o Senhor para quem trabalhou até o seu último fôlego.
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MATERIAL PREPARADO PELO MISSIONÁRIO
PR. JEFFERSON QUEVEDO.
IMAGENS RESGATADAS DE DIFERENTES FONTES.




Conheci Missionária Iloni e posso confirmar tudo isso e, muito mais, sobre seu amor pelo Senhor e pelas almas. Era uma serva obediente...