Desigrejados: Um alerta pastoral às nossas igrejas locais
- Edição JA

- há 2 dias
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Entre a crise institucional e o chamado à restauração bíblica.

O crescimento do número de evangélicos que professam fé em Cristo, mas optam por viver fora da membresia e da vida ativa de uma igreja local, deixou de ser um fenômeno periférico para tornar-se um dos maiores desafios pastorais contemporâneo. Popularmente chamados de “desigrejados”, esses cristãos já não podem ser ignorados, caricaturados ou tratados apenas como estatística de evasão eclesiástica.
Pesquisas recentes indicam que milhões de brasileiros se identificam como evangélicos, mas não frequentam igrejas. Em algumas estimativas, esse contingente rivaliza numericamente com as maiores denominações do país. Trata-se, portanto, de uma realidade que interpela diretamente pastores, missionários e lideranças das nossas igrejas, exigindo discernimento espiritual, reflexão bíblica e responsabilidade pastoral.
Quem são os desigrejados?
Os desigrejados não constituem um grupo homogêneo. Em geral, são homens e mulheres que:
Confessam fé em Jesus Cristo;
Mantêm crenças na doutrinas centrais da fé cristã;
Consomem conteúdos cristãos (pregações, estudos bíblicos, literatura);
Mas não mantêm vínculo institucional nem participação regular em uma igreja local.
Pesquisas sociológicas apontam que muitos deles são jovens adultos, com nível educacional mais alto, forte presença em ambientes urbanos e digitais. Importante destacar: a maioria não se identifica como descrente, mas como alguém que se afastou da igreja como instituição, não necessariamente do evangelho.
As causas do desigrejamento: mais do que rebeldia

Reduzir o desigrejamento a simples frieza espiritual ou rebeldia é ignorar as múltiplas causas apontadas por estudos, entrevistas e experiências pastorais. Entre os fatores mais recorrentes estão:
Crise de confiança nas instituições
Escândalos morais, falta de transparência, autoritarismo pastoral e incoerência entre discurso e prática cristã têm produzido profundo desencanto.
Experiências de abuso espiritual
Muitos relatam feridas causadas por controle excessivo, manipulação emocional, exclusão e ausência de cuidado pastoral.
Empobrecimento da vida comunitária
Igrejas que priorizam agenda, performance ou crescimento numérico, mas negligenciam discipulado, comunhão e cuidado mútuo, tornam-se espaços funcionais, não relacionais.
Tensões culturais e políticas
A imposição de visões políticas e ideológicas homogêneas, intolerância com diferentes posições e respostas simplistas a questões complexas tem afastado especialmente jovens que desejam diálogo honesto e maturidade bíblica.
A cultura digital
A internet ampliou o acesso a conteúdo teológico, críticas e alternativas de vivência da fé, reduzindo a dependência da mediação institucional. Todos podem ter acesso a excelentes pregadores e mestres no ensino bíblico através da TV, do notebook e do celular.
O que diz o Novo Testamento?
À luz da eclesiologia do Novo Testamento, é necessário afirmar com clareza: a fé cristã nunca foi pensada para ser vivida em isolamento. Jesus declarou: “Edificarei a minha igreja” (Mt 16.18).
O apóstolo Paulo ensina que a igreja é o corpo de Cristo, no qual cada membro depende do outro (1Co 12.27). A igreja primitiva perseverava “na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At 2.42). Hebreus adverte: “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns” (Hb 10.25).

Biblicamente, não existe a categoria de “cristão solitário”. A comunhão, a mutualidade, o discipulado e a missão compartilhada são dimensões essenciais da fé cristã. Ainda que o quórum exigido seja mínimo (Mt 18.19-20), ele existe. Em Atos 5.42 aprendemos que era prática no início da Igreja, as reuniões de ensino nos lares. Várias passagens mostram que o lar era local de reunião de igrejas: Rm 16.5 - A igreja na casa de Priscila e Áquila; Cl 4.15 - Igreja na casa de Ninfa; Fm 1.2 - Igreja na casa de Áfia e Arquipo, e muitas outras. Igreja que crescem e não proporcionam meios de comunhão em pequenos grupos, tendem a anular a mutualidade.
Por outro lado, o Novo Testamento também é severo com lideranças abusivas, radicalismos, formalismo vazio e espiritualidade sem amor (Mt 23; 1Pe 5.1-3). Assim, a Escritura confronta tanto o isolamento individual quanto a deformação institucional. Em nenhum lugar na Bíblia somos ensinados a tratar o próximo ou o irmão de modo rude para defender a doutrina. Mas há quem se apegue a questões pontuais para criar regras.
Um espelho incômodo para as igrejas
O fenômeno dos desigrejados deve ser lido não apenas como falha dos que saíram, mas também como um espelho que revela fragilidades da liderança e do que ficaram. Boa parte dos desigrejados apontam para a má formação de líderes que sabem a doutrina, mas não aprenderam lidar com pecadores.
Trata-se de uma crise eclesiológica, pastoral e espiritual. Onde a igreja deixa de ser lugar de graça, verdade, cuidado e discipulado, ela perde sua plausibilidade como corpo vivo de Cristo.
Como bem observam líderes evangélicos brasileiros e estudiosos do tema, o desigrejamento nasce menos de uma crise de fé e mais de uma crise de liderança e de modelo de igreja. Há igrejas locais que confundem a forma com a essência.
Um chamado pastoral à restauração
Para pastores, missionários e líderes, a resposta bíblica ao desigrejamento não está na flexibilização da doutrina nem em estratégias meramente pragmáticas de retenção, mas em uma restauração profunda da vida eclesial à luz das Escrituras.

Isso implica:
Reafirmar a centralidade de Cristo, não da instituição;
Exercitar liderança servidora, humilde e responsável;
Criar comunidades seguras, acolhedoras e relacionais;
Investir em discipulado intencional, não apenas em eventos;
Ouvir os desigrejados com discernimento, sem desprezar suas dores;
Corrigir rumos, confessar pecados institucionais e buscar reavivamento espiritual.
A igreja do Novo Testamento não era perfeita, mas era viva. Não era isenta de conflitos, mas perseverava no amor. Não era sofisticada, mas era profundamente espiritual.
Conclusão
O crescimento dos desigrejados não é apenas um problema estatístico - é um clamor pastoral. Um chamado de Deus para que as igrejas locais voltem a ser, acima de tudo, corpo de Cristo, família da fé e comunidade de graça, verdade e reciprocidade.
Se essa crise nos levar à humildade, à escuta e a fazer mudanças, ela poderá tornar-se um instrumento de purificação e renovação espiritual. “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às igrejas.” (Ap 2.7)







Boa mensagem! Gostei do tema, e de fato, é muito preocupante! Há igrejas cheias de membros, pastores orgulhosos com relatórios de grande número de almas alcançadas e muitos sendo batizados, mas logo depois, afastam-se por uma das razões citadas. Tenho um filho em São Paulo, ele é firme no evangelho, mas está nesse contexto e isso me preocupa . Precisamos orar e pedir direção a Deus, e avaliar, como bem disse o pastor Carlos Moraes, o que precisa ser feito, ainda há tempo! Parabéns pastor Carlos Moraes pela boa mensagem nesse assunto!
Gostei muito da ReReflexão Sobre os desegrejado,e muito preocupante, precisamos rever alguns conceitos 💡