top of page

Reflexões sobre a prevenção da violência nas escolas

Recentemente foram encaminhados ao redor do país, via redes sociais, vídeos ameaçando a segurança das crianças nas escolas. Muitos pais ficaram assustados, e escolas foram forçadas a avaliar e desenvolver novos meios de segurança. Após as tragédias que vêm aumentando em escolas ao redor do mundo e mais recentemente em escolas brasileiras, devemos parar para analisar o que tem acontecido e como podemos prevenir que aconteça novamente. Ao redor do país, autoridades diversas de liderança política, de segurança pública e da área educacional reuniram-se para tratar desse assunto importante de combate à violência escolar. Medidas de segurança foram aumentadas e projetos de lei criados e assinados.


Em Goiás, o governador Ronaldo Caiado sancionou a Lei 21.881 da Política Estadual de Prevenção e Combate à Violência Escolar. O documento trata de vários protocolos para promover a segurança, dá autoridade para a escola revistar mochilas, reforça a necessidade de vigiar plataformas digitais, responsabilizando também os responsáveis legais por atos violentos e postagens que incitam a violência online. Inclusos nas medidas previstas estão a instalação de câmeras nas escolas, utilização de detectores de metais e campanhas de combate ao bullying. Também trata da comunicação à polícia, conselho tutelar e a família com apoio de psicólogos em casos de cyberbullying, discursos de ódio, intimidação e violência (Secretaria do Estado de Educação: Governo do Estado de Goiás, 23/04/2023).


No estado de São Paulo, entre as medidas anunciadas pelo governador Tarcísio G. de Freitas, estão o investimento de R$240 milhões na contratação de 550 psicólogos e 1.000 seguranças privados para as escolas estaduais. Os prédios escolares também devem ganhar um botão de acionamento prioritário no aplicativo 190 e reforço no policiamento e na Ronda Escolar (São Paulo, Governo do Estado, 13/04//2023).


Sou dona de escola e também participei de muitas reuniões, elaborei, após receber muito conselho, um protocolo de segurança para nossa escola. Em uma reunião virtual com donos de escolas em Goiânia, um diretor nos encorajou a analisar a ciência (estatística) antes de tomarmos medidas extremas. Fiz isso e contemplei não somente o que tem acontecido mas os porquês e como podemos prevenir.


As escolas norte-americanas vêm reforçando sua segurança com a instalação de detectores de metais, portas reforçadas, software de reconhecimento facial, coletes, mochilas e até lousas à prova de bala. O mercado de equipamentos e serviços de segurança para o setor de educação nos Estados Unidos movimentou US$ 2,7 bilhões apenas no ano de 2017 (consultoria IHS Markit citado por Alessandra Corrêa, BBC News, 19/03/2019). De lá para cá, o valor tem aumentado a cada ano. Apesar de todo este esforço, o número de atentados cresce a cada novo ano letivo. Ou seja, o problema real não é a falta de segurança nas escolas. “Tornar as escolas parecidas com prisões tende a ter um impacto negativo a longo prazo”, disse à BBC News Brasil um dos autores, o especialista em violência em escolas e bullying Ron Avi Astor, professor da University of Southern California (Universidade do Sul da Califórnia), em Los Angeles. Astor lembra que, apesar de trágicos, os massacres em escolas são raros, mesmo nos Estados Unidos. “Há muito mais ataques em restaurantes, cinemas, shoppings, até em correios. E não estamos transformando esses locais em prisões (com excesso de equipamentos de segurança e funcionários armados)”, diz (Corrêa,18/03/ 2019).


Existem alguns exemplos de ataques em escolas por pessoas desconhecidas pelas instituições, mas a maioria são realizados por alunos, ex-alunos ou ex-funcionários e houve testemunhos de pessoas dizendo que os autores apresentavam características preocupantes. Alguns sofriam de depressão ou praticavam o isolamento. Outros tinham feito postagens de ódio ou violência online. A maioria eram vítimas de bullying. Ou seja, o problema surge dentro da escola e não é corretamente identificado ou tratado. Abaixo cito apenas oito dos ataques mundialmente mais notados em que todos os autores eram alunos, ex-alunos ou ex-funcionários das escolas. As motivações citadas foram maus tratos, bullying e rejeição.


1. Columbine High School, Colorado (EUA), 1999, 15 mortos


2. Virginia Tech University, na Virgínia (EUA), 2007, 32 mortos


3. Winnenden, na Alemanha, 2009, 16 mortos


4. Realengo (RJ), Brasil, 2011, 13 mortos


5. Sandy Hook Elementary School, em Connecticut (EUA), 2012, 26 mortos


6. Santa Fe High School, Texas (EUA), 2018, 10 mortos


7. Marjory Stoneman Douglas High School, Florida (EUA), 2018, 17 mortos


8. Robb Elementary School, em Uvalde, Texas (EUA), 2022, 21 mortos


No Brasil, de acordo com o mapeamento da Unicamp, os ataques registrados desde 2002 aconteceram em 19 escolas públicas, entre estaduais e municipais, e em quatro particulares. Vamos olhar o motivo de alguns:


1. Medianeira, Paraná, 2018. Motivo: bullying


2. Goiânia, 2017. Motivo: bullying


3. João Pessoa, 2012. Motivo: vingança contra colega


4. São Caetano do Sul, 2011. Motivo: possível vingança contra a professora


5. Realengo, 2011. Motivo: humilhações que enfrentou enquanto estudava


6. Taiúva, São Paulo, 2003. Motivo: bullying


7. Salvador, 2002. Motivo: vingança contra 2 colegas


8. Suzano, na Grande São Paulo, 2019. Motivo: influenciados por jogos


violentos e discursos de ódio online


Entre esses e os demais ataques no Brasil, somente o recente em Blumenau foi feito por um criminoso sem vínculo à escola (BBC News Brasil, 13/03/2019; Exame, 13/03/2019; Keneally, 29/04/2019; NIJ, 22/08/2019; Rodrigues, 07/04/2023; e Stoodi, 05/07/2020).


Nos EUA, de nada adiantou um investimento financeiro vultoso em equipamentos e pessoal de segurança. Os eventos aumentaram, pois não combateram a origem do problema. O que tem mudado em nossa sociedade para ter um aumento de violência como estamos vendo? Muito tem mudado. Só nos meus 26 anos atuando na educação, vejo uma diferença nítida no comportamento das crianças e percebo vários motivos. Vivemos em uma sociedade que tem se distanciado cada vez mais da Palavra de Deus e valores Bíblicos. Vamos analisar alguns motivos que creio terem contribuído para o déficit de bom caráter, aumento da depressão e problemas emocionais em muitas crianças e jovens hoje.


O ensino na escola sofreu mudanças


Uma mudança tem sido a influência humanista. Ao invés de ter um ensino centrado no professor, uma autoridade com conhecimento e valores a transmitir e cobrar dos seus alunos, tudo agora é, na maioria das escolas, centrado na criança, seus interesses e até em muitos casos suas vontades. Com isso, muito conteúdo deixou de ser dado e cobrado. Professores são instruídos a não danificar a autoestima da criança, que não se deve dizer não às mesmas. Professores são instruídos a dar valor às respostas dos seus alunos, mesmo sendo erradas, incentivando o debate sem a bagagem para um real senso crítico e sem o controle de sala necessário para um clima de fácil aprendizagem. Muitas escolas têm trocado notas por portfólios e conceitos, mas sem um padrão concreto para avaliar, algo que possa servir para incentivar a atingir um certo nível, a mediocridade aumenta. Sendo assim, muitas crianças e jovens deixam de aprender conteúdos básicos necessários para o futuro deles então, quando chega a hora em que o mundo real não parabeniza seu trabalho medíocre, muitas dessas crianças e jovens, ao perceberem que não estão no nível esperado, entram em depressão ou frustração, às vezes até reagindo de forma violenta. O bullying aumenta, pois para muitos é a forma que usam para esconder suas próprias falhas e inseguranças (Baker, 2004, Kjos, 1995).


O respeito à autoridade tem mudado


No início da minha carreira como professora, chamava um pai para relatar um problema de comportamento ou uma dificuldade acadêmica e a maioria das vezes era ouvida sem questionamentos e o pai disciplinava ou dava o acompanhamento acadêmico necessário e, com seu apoio, resolvia tudo de forma rápida. Hoje passo muito tempo convencendo pais que seu filho precisa ser corrigido. Muitas crianças manipulam seus pais e muitos pais defendem as desculpas dos seus filhos ao invés de exigir que mudem de comportamento ou estudem para melhorar suas notas. Um problema relacionado é professores desestimulados, pois quando o aluno vai mal em uma avaliação, ao invés de corrigir o aluno, muitos pais chegam bravos com o professor. Lembro que, quando era criança, apenas um olhar dos meus pais era suficiente para mudar meu comportamento. Isso era porque sabia, por experiência, que aquele olhar podia ser seguido por ação e isso já era o suficiente para eu mudar meu comportamento. Hoje é comum ver crianças debatendo com seus pais e pais tentando convencer seus filhos a entrar em combinados. Outra mudança dramática tem sido o aumento de delegar disciplina e aconselhamento para psicólogos e terapeutas. Como resultado, vejo muitas crianças cheias de razões pelos seus atos, não sendo contrariadas ou corrigidas. Deus mandou OS PAIS educarem seus filhos no caminho em que devem andar e para criar seus filhos na admoestação do Senhor (Provérbios 22.6, Efésios 6.4). E, pai, se perceber que mesmo com toda a sua disciplina e aconselhamento seu filho precisa de um apoio maior, procure quem possua princípios bíblicos para lhes auxiliarem. Há muito valor em aconselhamento pastoral e muitas vezes o conselho precisa ser dado ao pai e não somente ao filho para que possa disciplinar e aconselhar melhor seus filhos.


A rotina das famílias e interação com os filhos têm mudado


Estamos sempre correndo e parece que não sobra tempo para fazer as coisas que nossos pais faziam conosco. Aumentou o trabalho ou aumentaram as distrações? Nossos aparelhos eletrônicos se tornaram essenciais para nosso trabalho e comunicação diária, mas se não nos policiarmos, irão roubar nosso tempo de qualidade em família. Os aparelhos também estão tomando o tempo dos filhos, pois é muito mais fácil para os pais usarem uma de suas “babás eletrônicas” do que levar seus filhos ao parque, participar de uma brincadeira criativa ou participar de um jogo de tabuleiro. Quantas famílias tenho visto, em restaurantes, não conversando, mas cada um no seu aparelho! Quantas dessas crianças têm dificuldade em olhar no olho e conversar normalmente com as pessoas! A interação humana de qualidade tem diminuído deixando muitas crianças com déficit em um desenvolvimento social saudável e muitas vezes uma falsa percepção da realidade (Biblical Discipleship Ministries, 2014).


O lazer tem sofrido mudanças


Além de influenciar o aspecto social, a tecnologia tem influenciado a saúde física, mental e espiritual. Crianças que passam horas à frente de aparelhos digitais são menos criativas e têm menos atenção em sala de aula, afetando sua aprendizagem e capacidade de desenvolver atividades que necessitem de mais criatividade. Exercícios físicos são um meio de liberar o estresse. Estamos vendo crianças e jovens, com o aumento do uso dos aparelhos, sendo mais sedentários, mais depressivos e mais isolados. Agora acrescente a influência daquilo que eles estão assistindo online e trocando via mensagens. Está acontecendo, cada vez mais cedo, crianças tendo acesso à Internet com supervisão inadequada. Influências para violência e bullying, estímulos para a sensualidade e pornografia. Essas imagens, vídeos, músicas e conversas são canais de perigo extremo para as crianças e jovens (Center on Media and Human Development, 2013; Biblical Discipleship Ministries, 2014). Ao longo dos anos, na educação, tenho tratado várias situações de bullying que foram motivadas por algo que a criança assistiu online. Tenho lidado com situações de agressão física por alunos que vivem assistindo jogos ou vídeos violentos. Tenho lidado com crianças depressivas e desmotivadas, pois não dormem direito, ficando até altas horas no celular. Tenho lidado com crianças e jovens com mentes poluídas, pois tiveram acesso a conteúdos horríveis. Temos que ajudar as crianças a guardarem seus corações e afastarem-se das más influências que as incentivam a ouvir e assistir o errado. Temos que vigiar o que assistem e ouvem. Elas não precisam experimentar as cicatrizes do pecado para saber o que faz mal (Salmo 101.3, Salmo 1, Romanos 12.1-2, Romanos 16:19).


Cada um precisa fazer sua parte. Fiquei feliz em ver o governador de Goiás colocando a responsabilidade nos pais para olharem as mochilas e acompanhar o uso da Internet dos filhos. Pais precisam fazer isso e muito mais. Procure uma escola que compartilhe seus valores. Envolva-se nos estudos e acompanhe as amizades dos seus filhos. Ensine-os a guardar seus corações; vigie o que ouvem e assistem (Provérbios 4.23). Não confie de forma cega (Jeremias 17.19). Quando tiver algo a questionar, antes de defender seus filhos no erro ou tirar a autoridade do professor perante eles, faça perguntas na escola, sem que seus filhos estejam cientes, juntando todas as informações, ciente que os filhos raramente contam tudo quando eles fizeram algo que não deviam. Não delegue suas responsabilidades para babás eletrônicas, profissionais que não compartilham valores bíblicos, nem mesmo para a escola. Cultive um relacionamento com boa comunicação com seus filhos, passando tempo de qualidade, conversando e aconselhando. Não deixe que seus filhos sejam sedentários. Ao perceber que seu filho está com sinais de depressão ou isolamento ou está reagindo com raiva, averigue a causa e, precisando de ajuda, procure aconselhamento bíblico.


A educação, desde cedo, e ensinamento de caráter vindo de casa é fundamental no combate à violência nas escolas. Graças a Deus pelas famílias, igrejas e escolas que não têm se distanciado da Palavra de Deus e estão investindo no caráter da próxima geração. Na Palavra de Deus encontramos a solução de todos os problemas que enfrentamos. Infelizmente há muitos que ainda não têm esse conhecimento. Estamos fazendo nossa parte para que o mundo receba o que temos em Cristo? Que Deus possa lhes dar sabedoria criando seus filhos no caminho do Senhor e os protegendo neste mundo assustador, lembrando que a proteção mais poderosa é a que vem do Senhor. “Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o SENHOR não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela” (Salmo 127.1, ACF).


Se desejar saber mais sobre educação fundamentada em princípios da Bíblia, leia o nosso próximo artigo e acompanhe o que Deus está fazendo na área de material didático para escolas Cristocêntricas: fundamentocristao.com.br ou ligue para (62)3954-0061/ (62)98598-2166.


_________________________________________________


Referências


Baker, A. A. (2004). The successful Christian school. Pensacola, Florida: A Beka Book Publication.


BBC News Brasil (13/03/2019). Tiros em Suzano: 10 casos de massacres em escolas que chocaram o mundo. em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47558612


Biblical Discipleship Ministries (2014). Biblically Handling Technology and Social


Media: Applying Biblical Principles to Facebook, Texting, iPods, etc).


Center on Media and Human Development (2013). Parenting in the age of digital technology: A national survey. NorthwesternUniversity.


Corrêa, Alexandra (18/04/2019). As medidas adotadas nos EUA para combater massacres em escolas. BBC news Brasil. https://www.bbc.com/portuguese/geral-47578129


Exame. (13/03/2019). Os massacres em escolas que chocaram o mundo na última década. Em https://exame.com/mundo/os-massacres-em-escolas-que-chocaram-o-mundo-na-ultima-decada/


Keneally, Meghan. (19/04/2019). The 11 mass deadly school shootings that happened since Columbine. Em https://abcnews.go.com/US/11-mass-deadly-school-shootings-happened-columbine/story?id=62494128


Kjos, B. (1995). Brave New Schools. Eugene, Oregon: Harvest House Publishers.


National Institute of Justice (NIJ), (22/08/2022). Five Facts about Mass Shootings in K-12 Schools. Em https://nij.ojp.gov/topics/articles/five-facts-about-mass-shootings-k-12-schools


Rodrigues, Léo (07/04/2023). Crescem casos de ataques em escolas: especialistas dizem o que fazer. Agência Brasil em https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-04/crescem-casos-de-ataques-em-escolas-especialistas-dizem-o-que-fazer


São Paulo, Governo do Estado (13/04//2023). Governo de SP anuncia pacote com políticas públicas para ampliar segurança nas escolas em todo Estado. https://www.educacao.sp.gov.br/governo-de-sp-anuncia-pacote-com-politicas-publicas-para-ampliar-seguranca-nas-escolas-em-todo-estado/



Stoodi. (05/07/2020). Massacre em Suzano: o que foi e principais motivos!







Comments


bottom of page