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Texto sobre texto, qual a sua perspectiva?

Palimpsesto é o nome que se dá ao reaproveitamento do papiro ou pergaminho confeccionado para documentos e escritos em geral. Essa técnica, comumente utilizada na Idade Média, consistia em raspar escritos em desuso como antigas leis, para possibilitar a reutilização do material. Esse processo era amplamente difundido uma vez que era dispendioso todo o mecanismo para o preparo dos rolos. Anos mais tarde com a descoberta de muitos desses registros, por seu valor histórico, foram realizados extensos estudos e mapeamentos na tentativa de trazer à tona aquilo que se tinha tentado apagar.

 

Hoje essa denominação é utilizada para referir-se a autores com grande habilidade literária que, ao dizerem algo através de seus textos, querem na verdade informar algo mais rico e profundo escondido por entre as linhas, submerso no emaranhado de sentenças e informações.

 

Muitas vezes tenho ouvido pessoas dizerem não entender muitas passagens bíblicas, caracterizando-as como complexas ou ultrapassadas demais para os dias de hoje. Costumo dizer que o homem não mudou, embora tenha modernizado suas moradias, inundado seus afazeres com tecnologias, sufocado suas relações com curtidas e reels vazios e impessoais.

 

Nossas ambições, misérias e pequenez continuam as mesmas, mas o consolo é que nosso misericordioso Deus também é o mesmo! E continua no trono de onde derrama sua compaixão por nós. Esse contraste tão evidente entre a nossa natureza pecaminosa e a graça de Deus é facilmente percebido na vida de Raabe (Josué 2.1-14 e 18; 6.1-16; 20 e 22).

 

Ao me debruçar nessa história tão fantástica sempre me vem à mente a perspectiva que encaro os problemas, a vida cristã. Nesse relato tão extraordinário do agir de Deus em favor do Seu povo posso ver três distintas perspectivas.

 

1. A geração que enxergou os "muros".

Apenas dois ou três meses após a saída do Egito, toda aquela grande multidão estava diante do último passo para tomar posse da Terra Prometida. Infelizmente, eles estavam olhando para os obstáculos, para as dificuldades. Eles olharam o tamanho dos habitantes, a sua força e se deixaram vencer pelo medo e falta de confiança em Deus.

 

Como consequência vagaram 40 (quarenta) anos no deserto até que toda aquela geração morresse, exceto Josué e Calebe os únicos dos doze espias de Moisés que permaneceram confiando em Deus. Incrível pensar que essa é a geração que foi testemunha ocular das 10 (dez) pragas no Egito, que pôde passar pelo meio do mar em seco, mas não creram na capacidade e no poder de Deus para os entregar Canaã.

 

2. A geração que viu além dos muros.

Depois de tanto tempo vivendo como nômades no deserto, o povo de Israel está em frete a muralha de Jericó; mas ao contrário da geração anterior, eles decidiram confiar em Deus. Deus ordenou que circundassem Jericó uma vez ao dia durante seis dias e sete vezes ao sétimo dia seguido de um grito aterrador. Parece uma tática de guerra abordando um cerco psicológico que deu muito certo! Para um exército de homens valentes parecia talvez bem humilhante ficar andando em volta da cidade e depois simplesmente retornar para o acampamento. Mas eles estavam exercitando fé e obediência em Deus.

 

Como resultado, puderam testemunhar o sobrenatural de Deus acontecer: as muralhas ruíram! Os habitantes de Jericó ficaram com certeza perplexos e o exército de Israel fez como Deus mandara; matou todos e queimou a cidade toda. Salvo Raabe e toda sua família.

 

3. Uma mulher que olhava sobre o muro.

 

Há muitas especulações sobre Raabe, a prostituta. Alguns crêem que ela era dona de uma estalagem ou uma prostituta cultual. O fato é que ela era cananéia, de um povo idólatra; o nome Jericó significa "cidade da lua" e assim se dedicava a adoração do deus-lua. Aquela mulher de moral duvidosa dá um testemunho surpreendente aos dois espias de Josué (Josué 2.10 e 11).

 

Os muros para ela representavam lugar de moradia, local de trabalho. Sobre os muros, ela tinha uma visão privilegiada e estava sempre rodeada de novidades. Era uma mulher conhecida pelo seu povo e até o rei manda inquiri-la chamando-a pelo nome. A Bíblia nos diz que 'a fé vem pelo ouvir' (Romanos 10.17) e ela ouvira falar do Deus de Israel, o único e verdadeiro Deus que não divide adoração com nenhum outro.

 

O fato dela ter mentido e ainda ser salva por Deus é uma evidência cabal da misericórdia desse Deus salvador; ainda uma pecadora tentando se desvencilhar dos velhos hábitos e correr com confiança para a salvação que se lhe apresentava. A vida de Raabe me mostra que não há pecados com os quais Deus não possa lidar se tão somente estivermos dispostos a abrir mão de nossas crenças e costumes e nos apegar àquilo que Deus tem para nós. Na janela, sobre os muros, Raabe estendeu o cordão vermelho para livramento de toda sua família.

 

Aquela mulher estrangeira habitou no meio do povo de Israel (Josué 6.25), uma prova de que abandonara os costumes antigos e se convertera ao Deus de Israel e adotara a lei mosaica. Como recompensa da sua fé (Hebreus 11.31 e Tiago 2.25), superior à da geração de Moisés, fez parte da linhagem de Davi, foi mãe de Boaz, e por conseguinte da linhagem messiânica (Mt. 1.5).

 

O Deus que salvou Raabe e toda sua família é o mesmo que tem oferecido salvação a todo aquele que crer. Um Deus que nos dá liberdade para enxergar os problemas e ser derrotados pelo medo; um Deus que nos permite aprender a ver além das dificuldades e confiar nEle. Um Deus que nos ensina que há tempo de cercar os problemas, mas também que é necessário voltar para as outras atividades.

 

Por baixo de todas as Palavras dessa Escritura há um cordão vermelho que aponta de Gênesis ao Gólgota, que inequívoca e claramente grita uma salvação sublime de um Deus que não há pecados que não possa perdoar; um redentor que pagou o preço completo de toda raça humana e aguarda apenas a entrega e confissão genuínas daqueles por quem ele morreu.

 

Que essa Palavra Viva que fala através de todas as histórias e relatos; que prova vez e outra um amor imensurável, bem como um Deus de aliança, de compromisso, de mudança de vida; possa ressoar as verdades imutáveis aos corações aflitos e pés dispostos e trazer discernimento e clareza à cegueira espiritual.

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REFERÊNCIAS 

PALIMPSESTO. In: WIKIPÉDIA: A Enciclopédia Livre. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Palimpsesto>.

Acesso em: 02/05/2024.BÍBLIA, Português. A Bíblia da Mulher: Leitura, Devocional, Estudo. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição Revista e Atualizada. 2ª Ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2014. BÍBLIA, Português. Bíblia de Estudo Diário da Mulher. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição Corrigida Fiel. São Paulo: Bom Pastor, 2011. BÍBLIA, Português. Bíblia Vida Nova. Tradução João Ferreira de Almeida. Edição Revista e Atualizada. 13ª Ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1990.

DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. Editores Assistentes: F. F. Bruce, R. P. Shedd. Tradução de João Bentes. São Paulo: Edições Vida Nova, 1986. HALLEY, Henry H. Manual Bíblico: Um Comentário Abreviado da Bíblia. Tradução David A Mendonça. 9ª Ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1989.

 

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