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Creio, logo adoro.

Lucas, um dos escritores dos evangelhos sinóticos, à semelhança de Marcos, não era discípulo de Jesus. Era gentio e médico; o conhecimento técnico do ser humano, da sua estrutura, falibilidade e peculiaridades o motivaram a registrar a história de Jesus sob uma perspectiva do Homem-Deus.

 

Seu evangelho é comumente aceito como aquele que narra os fatos da vida de Jesus em ordem cronológica, e ele próprio assim atesta (Lc. 1.3). Sua narrativa é centrada na humanidade de Jesus e sua profunda empatia e compaixão pelos oprimidos e excluídos. Um desses relatos me chamou a atenção por ser encontrado apenas nesse evangelho: A Pesca Maravilhosa (Lc. 5.1-11). Por que esse milagre tão extraordinário, omitido pelos outros evangelhos, foi narrado com ricos detalhes por Lucas?

 

É importante destacar os destinatários primários dos escritos deste evangelista; em primeira instância, sua intenção era relatar os eventos vividos pelo Homem-Deus aos gregos, os gentios que careciam igualmente da salvação que só Jesus pode oferecer. A Grécia era o país das artes, filosofia, cultura, educação. Valorizavam o homem culto e sábio. À semelhança dos gregos estamos hoje estimando o conhecimento humano acima da Palavra de Deus.

 

A Bíblia nos ensina e até exorta a buscar a sabedoria, entretanto a conclusão desse profundo saber deve apontar para um só desfecho: a Palavra de Deus e o Deus da Palavra. O terceiro evangelista ao fazer seu árduo trabalho de coletar informações e consultar inúmeras fontes daqueles que andaram e viveram com Jesus, daquela que havia gerado e criado o Salvador, pôde chegar a este entendimento: não há conhecimento pleno fora ou longe de Deus.

 

Como mulheres cristãs temos sido bombardeadas de tantas filosofias e abordagens humanistas tão sutilmente agradáveis ao ouvido e ego que querem nos seduzir. Tentam ludibriar nossa mente e alimentar esse insaciável desejo por questionar, por duvidar, por desafiar os limites e funções estabelecidos por Deus e que nada têm a ver com capacidade ou falta dela; com expressão individual ou alienação social.

No início do nosso texto observamos o que era comum por onde Jesus andava: "...Apertando-o a multidão, para ouvir a Palavra de Deus" (vs. 1 - 3).

 

Ali pelos arredores das cidades de Betsaida e Cafarnaum, às margens do mar da Galiléia (Lago de Genesaré) Ele falava à multidão. Não existem acasos ou coincidências para Deus; o Senhor do tempo e das estações se aproximou dos barcos de duas duplas de irmãos pescadores e usou o barco de um deles, o de Pedro, como palanque.

 

Pedro, André, Tiago e João estavam lavando as redes depois de uma noite de trabalho frustrado. Embora o resultado do seu esforço tenha dado em nada, ainda se fazia necessário pôr em ordem todas as coisas, seus equipamentos e petrechos; a sua 'casa'. Tal como eles precisamos estar aptas para retomar, é necessário que tudo esteja pronto e arrumado para a batalha do turno seguinte; o Mestre quer usar o 'barco' mesmo que ele não tenha trazido peixe.

 

Os quatro pescadores já conheciam Jesus e haviam aceitado seu convite ao discipulado, mas continuavam lançando suas redes ao mar em busca de sustento. Afastando-se um pouco da margem, Pedro estava com Jesus no barco ouvindo-o falar às pessoas. Estava exausto, frustrado, tomado de preocupações, aos pés de Jesus 'ouvindo a Palavra de Deus'.

 

O homem Pedro, o pescador inculto, ouvindo Jesus o Homem-Deus, o Rabi falar de coisas tão elevadas e distantes da sua situação atual. Talvez quisesse que o sermão terminasse logo para que pudesse ir para casa; talvez esperasse ver algo extraordinário como vira em outras ocasiões. "Faze-te ao mar alto, e lançai as vossas redes para pescar" (vs. 4-7)

 

Contra todas as expectativas de Pedro o Senhor o manda recomeçar! Como pescador de profissão, seu trabalho naquele horário da manhã era apenas consertar as redes, limpar os barcos e descansar para a pesca da noite seguinte. Mas Jesus o manda voltar para o mar. Jesus não estava questionando ou subestimando a destreza dele; estava trabalhando na vida, nas percepções de Pedro em relação ao que ele conhecia e estava habituado a fazer; aquilo que ele pensava estar sob o seu controle e domínio.

 

O sol alto, as águas mornas, o cansaço. 'Lançar as redes'? Pedro indaga Jesus. Com este questionamento o pescador de ofício estava dizendo a Jesus: "olha eu passei a noite toda lançando redes, o horário apropriado para fazer isso e não pesquei nada!" Pedro estava colocando diante de Jesus todo o seu conhecimento técnico e profissional sobre a questão; quem sabe ao olhar para Jesus tenha pensado "o que um carpinteiro pode saber sobre o movimento, a temperatura o leve borbulhar das águas?"

 

Interessante que após esse breve momento de hesitação, ele responde "sobre a Tua Palavra lançarei a rede". Essa sentença contém mais do que uma conformidade para um pescador experiente, era equivalente dizer: "apesar do meu conhecimento, das minhas habilidades, das tradições e condições externas, porque o Senhor está mandando, eu lançarei a rede!"

 

E, contra todas as projeções e paradigmas humanos, "colheram grande quantidade de peixe". O agir sobrenatural de Deus não deixa dúvidas, não passa despercebido ou dá margem para suposições. Aquele que por meio da Sua Palavra fez surgir todas as coisas, poderia trazer alguns peixes das profundezas para as redes de Pedro. O que o Senhor concede pode ser compartilhado! Desfrutar da conquista, poder dividir com outros a alegria da providência e do cuidado de Deus é algo igualmente maravilhoso.

 

"E, levando os barcos para a terra, deixaram tudo, e o seguiram”. (vs. 8-11)

A constatação da grandeza de Jesus frente a insignificância da condição humana de Pedro o fez se prostrar e reconhecer que não era digno de estar com Jesus. O chamado para o apostolado dos quatro amigos foi tão impactante que diz as Escrituras "deixaram tudo, e o seguiram". Mesmo anos a fio pescando e sobrevivendo da pesca vinda do Lago de Genesaré, aqueles homens nunca haviam testemunhado uma pesca tão abundante, ainda assim, tudo ficou ali, na praia.

 

Se aproximar de Jesus e poder ser confrontado com sua grandeza e soberania leva a uma única atitude: reverência total. Estar consciente da Sua majestade nos leva a entender a insignificância do nosso vil e limitado conhecimento; da nossa inequívoca arrogância e presunção.

 

Jesus permitiu que Pedro conduzisse o barco, manuseasse as redes, se deixasse usar e ser útil ao Mestre. Quantas vezes nos afundamos em nossas razões (que são legítimas!) e não nos permitimos ser usadas, ensinadas, moldadas por Deus para o Seu propósito. Aqueles homens, dedicados e capazes, tinham total discernimento e competência quanto às suas funções, mas o que Pedro pôde rapidamente concluir é que, embora possuísse conhecimento sobre algo, ainda tinha um Senhor a quem devia obediência e submissão e, que pela Sua Palavra deveria lançar a rede; e como ele, eu também devo: devo mudar de direção, devo me reconciliar, devo recomeçar, se assim Ele o quer.

 

O médico Lucas, inspirado pelo Espírito Santo, queria que os gregos e todos nós compreendêssemos que todo saber humano não pode ser e não está acima dAquele que é insondável o seu entendimento (cf. Isaías 40.21-28). Aquele Homem que arrastava multidões, que era um pobre carpinteiro de Nazaré, era o próprio Deus em quem reside toda a ciência e poder e graça.

 

Que ao ler e ouvir as Palavras registradas neste Livro, a Bíblia, que é atemporal, que não está condicionada a culturas, filosofias e leis humanas, possamos agir como aqueles indoutos pescadores às margens do Mar da Galileia e deixar tudo, até mesmo nosso finito e restrito aprendizado.

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Luana S. V. Batista

Casada com Pr. Hudson, pastor da IBC de Dourados MS

Mãe da Débora (12) e da Marina (06)

Bancária. Formada em Letras pela UEMS.

Básico em Teologia no Seminário Batista Emaús em Cuiabá MT

 

 

 

 

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