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Divisão na igreja local entre clérigos e laicato

Algumas igrejas defendem na teoria e na prática a divisão: clero da palavra kleeros cujo significado é herança e leigo da palavra laos, cujo significado é povo comum. Clero é um termo aplicado a uma hierarquia de pessoas nas igrejas locais e também, em alguns casos, uma hierarquia que exerce supervisão e autoridade sobre várias igrejas locais.

 

O clero na igreja local tem uma posição privilegiada principalmente por ter recebido treinamento em um seminário reconhecido pela denominação e ter sido consagrado, ou ordenado por líderes da sua denominação para   exercer a função de pastor, recebendo autoridade especial para pregar, batizar, ensinar, celebrar a ceia, casamentos, liderar o culto público, pregar em funerais, enfim, liderar o rebanho de "leigos".

 

O "leigo” faz parte de um grupo de crentes liderados que geralmente não fez um estudo formal e completo em um seminário e não foi ordenado, cabendo a ele, como membro da igreja local se submeter, se sujeitar, se subordinar aos pastores da igreja de maneira incondicional.

 

Em algumas denominações o "leigo" tem uma posição espiritual inferior aos membros do clero. O maior exemplo da hierarquia clerical é encontrado na Igreja Católica Apostólica Romana. Em algumas igrejas protestantes também encontramos hierarquia clerical, tanto dentro da igreja local, quanto acima dela, porém menos sofisticada e menos burocrática. 

 

Uma das evidências que elas defendem a divisão entre o clero e os leigos é o uso de vestes clericais para ressaltar e diferenciar as suas funções, e posição de autoridade sobre o rebanho de "leigos" que compõem a igreja local. Alguns pastores, no lugar de vestes clericais usam apenas um colarinho clerical, como metodista e luterana, entre outras.

Também em algumas igrejas pentecostais e neopentecostais encontramos a prática de hierarquia clerical, através do uso de títulos como, bispos e apóstolos, por exemplo.

 

O clericalismo, que não tem fundamento bíblico, geralmente resulta da influência do judaísmo, conforme a Antiga Aliança, antes de Cristo e da Igreja. A hierarquia judaica era composta de: Sumo Sacerdote, sacerdotes, e levitas.

 

Infelizmente, até mesmo em algumas igrejas independentes, como a Batista, há certa tendência a aceitar um hierarquia na prática. Invenções como as figuras não bíblicas do “pastor principal" e dos "pastores auxiliares", em alguns casos descambam para uma espécie de hierarquia. O pastor principal tem a máxima autoridade, a última palavra, e tem, como subordinados, os pastores auxiliares.

 

Em Atos dos Apóstolos 20.17 e 28, Paulo chamou os presbíteros (plural) da igreja. Não chamou nenhum presbítero de “principal” nem outros de auxiliares. Na liderança da igreja primitiva havia pluralidade, mas não havia hierarquia, nem clericalismo. Mesmo as referências a termos como bispos, pastores e presbíteros não tem a ver com hierarquia, mas com diferentes funções e, em outros casos, diferentes dons.

 

Na Igreja do Novo Testamento encontramos a ideia de colegiado de pastores, mas sem qualquer inferência à figura de um pastor principal e outros hierarquicamente inferiores. De certa forma, até mesmo as igrejas que praticam a ordenação de diáconos acrescentam certa hierarquia à função.

 

Tenho como exemplo o que ocorreu certa feita quando eu estava pastoreando a IBI em Orlândia SP. Um irmão em Cristo que sempre visitava nossa igreja por ocasião de suas idas à cidade para visitar parentes, um domingo me chamou para conversar após a EBD. Como já havíamos sido apresentados no passado, e conversado várias vezes, ele me disse, sem pestanejar e com uma firmeza alarmante: “Pastor, não sei se o senhor está a par, mas na minha igreja em São Paulo, eu sou ordenado diácono e ocupo o cargo de presidente do diaconato. Como estou planejando mudar-me para Orlândia, pretendo me tornar membro aqui desta igreja e, assim, manter a mesma posição que tenho na minha atual igreja. Posso, inclusive, trazer uma carta de recomendação do nosso pastor presidente.

 

Claro que fiquei meio atordoado, pois jamais tinha ouvido tal coisa, mas depois de me refazer do susto, tivemos uma boa conversa sobre o que a nossa igreja fazia em relação ao diaconato. Ele me achou um tanto herege e, talvez por essa razão, não se mudou para Orlândia, ou foi presidir em alguma outra,

 

Advogo a base bíblica para ministério colegiado, e até acredito que deva haver uma liderança formal na liderança da equipe ministerial, mas de modo bíblico, tendo todos os pastores no mesmo nível, sem hierarquia entre si, e sem hierarquia sobre os membros da igreja local, a não ser aquela que faz de cada um de nós, servo dos demais, conforme o ensino de Jesus aos seus discípulos (Lucas 22.27; João 13).

 

Para o apóstolo Paulo, o colegiado servia para servir (Fp 1.1). Pedro é mais enfático ainda ao dizer: “¹ Aos presbíteros, que estão entre vós, admoesto eu, que sou também presbítero com eles, e testemunha das aflições de Cristo, e participante da glória que se há de revelar: ² Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; ³ Nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho. ⁴ E, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa da glória” (1 Pe 5.1-4)

 

Normalmente igreja onde há hierarquia clerical alguns até confundem igreja com edifício. Chegam exaltar o edifício como se ele fosse semelhante ao Templo, ou Santuário. Em certas denominações, objetos como o púlpito e a plataforma são intocáveis. Investe-se mais dinheiro com o edifício do que com missões. O prédio é a “casa de Deus". Na era apostólica e por muito tempo depois, os crentes se reuniam nas casas (Rm 16.3-4). Será que a casa de Aquila e Priscila, por exemplo, era também considerada e chamada de "santuário”, ou “casa de Deus"?

 

A igreja, de acordo com a Palavra de Deus, não é o edifício, nem um local para reunião, mas um grupo de crentes que se reúne para adorar, estudar a Palavra de Deus, cumprir as ordenanças do batismo e ceia do Senhor, ter comunhão entre os membros, e se preparar para cumprir a grande comissão. Em Roma os crentes perseguidos chegaram a se reunir nas catacumbas que eram subterrâneos da cidade. Será que estas catacumbas eram chamadas de "casa de Deus?".

 

De acordo com a primeira carta de Pedro, cada crente é chamado de sacerdote e tem total acesso direto à Presença de Deus. Não precisa de pessoas intermediárias para oferecer sacrifícios agradáveis a Deus. Jesus cumpriu a Lei e se tornou Sumo Sacerdote da Igreja e, por intermédio dele, chegamos ao Pai (Hb 13.15-16; Ap 1.5-6, Hb 10.19-22). A hierarquia do judaísmo cessou com a morte do Senhor Jesus na cruz Mt 27.50-51).

 

Na igreja primitiva não havia nenhuma divisão entre “clero” e "leigos". Todos os salvos possuem a mesma posição espiritual em Cristo. O que existe são dons e ministérios diferentes, pois nem todos possuem por exemplo os dons de pastor, evangelista ou mestre (Ef 4.11-13). Mas aqueles que possuem, por exemplo o dom de pastor, ao exercê-lo na igreja local não implica superioridade, ou posição maior diante de Deus sobre o rebanho. Precisam exercer a liderança como exemplos para que os membros da igreja local sejam edificados e equipados para a obra do ministério (Hb13.7,17).

 

O rebanho deve honrar, respeitar e obedecer seu líder, mas se o pastor pregar uma doutrina herética, ou desejar impor o clericalismo à força sobre a igreja local ele perde a credibilidade, a autoridade e o respeito. Estará desqualificado para exercer o ministério pastoral (Tito 1.5-9; 1Tm 3.1-7.

 

Pastor é, acima de tudo, um dom espiritual e não apenas uma função, ou título eclesiástico.  Muitas vezes aquele que exerce a função, ou ofício pastoral e é tratado com o título de pastor não tem chamado da parte do Senhor, não tem o dom de pastor para exercer este importante ministério para edificação da igreja. Muitas vezes em uma igreja local tem “pastor” sem dom e membros do rebanho com dom, sem a função e sem o título de “pastor”. Mas é impedido de exercer o dom devido à ideia de hierarquia estabelecida. Em um colegiado pastoral, nem todos precisam ter feito um curso formal e ter passado por um concílio e ordenação. A Igreja local precisa aprender a reconhecer os dons dos seus membros e os pastores deveriam orientar o rebanho a esse respeito.

 

Felizmente existem pastores de várias denominações que não defendem a hierarquia clerical. Em o Novo Testamento, os títulos, bispo, presbítero e pastor se referem à mesma pessoa exercendo o seu ministério, sempre   fundamentado em seu dom. Mas ele não é uma autoridade superior e absoluta acima dos outros.

 

Tem pastores que são verdadeiros ditadores e aí de quem ousar enfrentá-los. Isto ocorre muito no contexto neopentecostal, ou em grupos independentes quando surgem figuras com o perfil de Diótrefes. (Mt 20.20-27; 1Ts 5.12-13; 1Tm 5.17-20).

 

Os pastores devem ser servos, modelos de Cristo entre os crentes de uma igreja local (1Pe 4.10-11. O pastor deve ter como propósito principal na vida, glorificar o Senhor Jesus pelo seu testemunho e exercício do seu ministério pastoral.

 

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ESTE ARTIGO TEM O OBJETIVO DE REFLEXÃO E ALERTA ÀS IGREJAS LOCAIS

PARA ATUAREM COMO OS BEREANOS DE ATOS 17.10-11.


Pr. Valter R. Nogueira e Pr. Carlos A. Moraes

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