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Os cristãos dispensacionalistas e Israel

Sou dispensacionalistas. Como dispensacionalista, pratico a interpretação literal das Escrituras e, de modo muito especial, em relação às profecias bíblicas. Faço clara distinção entre Israel e a Igreja no programa de Deus. Conheço as demais posições, aceitas por outros irmãos que estarão comigo no mesmo céu, pois em relação à salvação cremos do mesmo modo e fomos salvos pela graça de Deus por meio da fé em Jesus Cristo.


Como vivemos um momento de excessiva superficialidade em relação à interpretação bíblica, especialmente no tocante aos temas escatológicos, corremos o risco de ver minguar os adeptos do dispensacionalismo. Boa parte dos membros das nossas igrejas nas últimas três décadas, pouco ouviram sobre interpretação de profecias bíblicas. Por isso há muitos questionamentos em ocasiões como a deste momento de crise geopolítica envolvendo Israel.


De certa forma, o esfriamento do interesse pelos estudos escatológicos deveu-se a alguns exageros e forçação de barra nas décadas de 1970 e 1980, em relação ao cumprimento das profecias sobre os dias finais da dispensação da Igreja. Alguns autores se perderam no sensacionalismo cinematográfico misturando cumprimentos futuros em relação a Israel como se devessem ocorrer na dispensação da Igreja. Assim, o arrebatamento da Igreja e a revelação de Cristo se confundiram para alguns, e o assunto passou a ser ignorado por muitos.


Para o dispensacionalista, teologicamente falando, está muito claro que a interpretação literal é correta, também em relação a Israel, que não foi substituído pela Igreja, mas também não faz parte da ação de Deus na dispensação da Graça. Há um tempo futuro no qual a Jerusalém terá a paz pela qual somos incentivados a orar quando se cumprir a vinda do Reino que está adiado. Ali se cumprirá, literalmente, a paz prometida por Jesus a Israel e pela qual a Igreja também clama, sabendo que esse Reino foi apenas adiado. A Igreja não é Reino.


O Reino será outra dispensação, na qual Deus voltará a tratar com Israel. O prelúdio do reino terá a septuagésima semana de Daniel como cenário e o anticristo sendo aceito como o Messias, cumprindo João 5.43: “Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis”. Assim que a Igreja for arrebatada, Israel voltará a ser o instrumento de Deus e tudo que ocorrer daquele momento em diante terá, literalmente, a não de Deus em ação.


O catolicismo romano e parte do protestantismo oriundo da Reforma defende a teologia da substituição, e considera que a Igreja substituiu Israel, pois há um só povo de Deus na terra. Nesse caso, a Igreja seria a continuidade natural de Israel. Muito do antissemitismo é oriundo desta posição.

Há, também, entre os dispensacionalistas, posições controversas que, mesmo acreditando que vivemos a dispensação da Graça, na qual Deus age através da Igreja, querem que Israel seja tratado com certa distinção especial. Defendem Israel, mesmo no erro, seguindo teorias judaicas humanistas capazes de gerar mais problemas no presente do que soluções para o povo.


Alguns, ao que parece, querem “ajudar” Deus fazer o que Ele que fará a partir do momento em que houver a dispersão final de Israel pela perseguição do anticristo (Mt 24) para então se cumprir a paz prometida no Milênio.


Desde muito cedo na minha vida cristã ficou claro o modo que eu olhava para as Escrituras relacionando os fatos históricos com a primeira vinda de Cristo. As profecias do Antigo Testamento foram cumpridas literalmente, em Cristo, desde o seu nascimento, passando por todo seu ministério, sua morte e ressurreição até deixar-nos, antes da ascensão, a sua grande comissão. Nenhum cumprimento deixou de ser literal. Portanto, em relação ao que falta o mesmo se dará, com toda certeza nessa dispensação na qual “não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3.28).


Assim, sem precisar das palavras de um teólogo de renome, posso afirmar que se a interpretação literal for usada no estudo bíblico, correremos poucos perigos de interpretar as profecias incorretamente. Uma das regras básicas da própria hermenêutica bíblica é que a Bíblia interpreta-se a si mesma e, portanto, passagens avulsas não podem contradizer o todo. Como afirmam os professores de hermenêutica: texto fora de contexto é caminho para as heresias, pois cada um poderá lhe dar o sentido que melhor lhe convier.


Deus trabalha neste mundo com dois grupos distintos de pessoas em distintas épocas: Israel e a Igreja. A salvação, na antiga e na nova aliança, sempre foi pela fé. Para Israel, na antiga aliança, era a promessa de Deus que enviaria o Messias. Israel tinha a missão de proclamar essa mensagem a todos os povos. Para a Igreja, o mesmo, em relação ao que Cristo veio e fez. Israel, no antes de Cristo, olhava para frente, para o que Cristo faria na Cruz; a Igreja, no depois de Cristo, olha para trás em relação ao que o Cordeiro de Deus fez na Cruz.


A rejeição do Messias pela nação de Israel deu ensejo à dispensação da Graça, na qual Deus passa a agir através da Igreja, composta de salvos de todas as nações, inclusive de Israel. “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.11-13).


Aqui entra uma das questões mais evidentes de que a interpretação literal das Escrituras não causa confusão: a profecia de Daniel referente às 70 semanas de anos que tem se cumprido em detalhes matemáticos. Falei sobre isso no editorial anterior “Hamas, instrumento de quem?” e, portanto recomendo que leia o texto. É sempre importante destacar que nós dispensacionalistas, por crermos em uma interpretação literal, aceitamos que muitas promessas referentes a Israel, ainda estão para se cumprir e, portanto, se cumprirão.

A Igreja não substituiu Israel no programa de Deus e aquelas promessas do Antigo Testamento a Israel não foram transferidas para a Igreja. As promessas de Deus a Israel em relação à terra, muitos descendentes e bênçãos, serão cumpridas no período de mil anos de que fala Apocalipse 20.


A partir do desaparecimento da Igreja, Deus concentrará sua atenção, de novo, em Israel (Rm 9-11). Mas antes das bênçãos de paz em Jerusalém e do próprio Reino e tudo que está prometido, será desbaratado a farsa humana em relação ao Israel do presente que está caminhando para os braços do anticristo.


Uma explicação final necessária

A palavra “dispensação” significa “administração” ou “mordomia”. É usada por Paulo no Novo Testamento (Ef 1.10; Ef 3.2; Cl 1.25). Assim, cada dispensação é uma etapa distinta na realização do Plano Mestre de Deus.

O Dispensacionalismo afirma que há sete dispensações durante toda a história e que cada uma delas envolve um teste ou uma responsabilidade, na qual o homem falha, e que é seguida pelo juízo de Deus.

Assim, a graça de Deus, através de Jesus Cristo, torna-se a única base de esperança para a humanidade.

Apenas para recordar, as sete dispensações são estas: Inocência (Gênesis 1:1- 3-7), Consciência (Gênesis 3:8- 8:22), Governo Humano (Gênesis 9:1 - 11:32), Promessa (Gênesis 12:1 - Êxodo 19:25), Lei (Êxodo 20:1 - Atos 2:4), Graça (Atos 2:4 - Apocalipse 20:3) e o Reino Milenar (Apocalipse 20:4 - 20:6).

Cada uma destas dispensações são maneiras pelas quais Deus interage com a humanidade.





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