Um ortóptero em nosso culto doméstico
- Kelson Mota T Oliveira

- 12 de mar. de 2024
- 5 min de leitura
Há muitas estratégias para manter uma família unida durante as ondas e vagalhões que assolam os anos da vida em comum. Evidentemente, se for esse o desejo de uma família. Há de tudo, desde os rituais alimentares básicos – todos tomam café, almoçam e jantam juntos, com muita conversa em mesa –, programas externos realizados sistematicamente – como sair uma vez por semana para comer fora ou ir ao cinema, teatro, parque, etc –, até àquelas onde todos devem necessariamente cultivar em grupo as mesmas inclinações – sejam acadêmicas, culturais, profissionais, religiosas ou outro propósito mais específico –, com um tema em comum a unir o bloco. Famílias inteligentes e interessadas, lançam mão de várias estratégias, e estão sempre procurando novas formas de curtirem a alegria de ser e estar em família.
Em casa, sempre que possível, lançamos mão de vários expedientes para aumentar a união familiar, e tornar a rotina diária menos tediosa e a alegria no lar mais sobranceira. Uma das práticas mais efetivas tem sido o estudo bíblico em grupo – o famoso culto doméstico. Após o jantar, limpamos a mesa, e, em lugar dos pratos, Bíblias são abertas, e estudamos, sistematicamente, um trecho das Escrituras, seguido de oração. É o tempo que temos para conversar sobre o estado de nossos corações, redirecionar caminhos e práticas erradas, solidificar valores e convicções, e crescer no conhecimento de Cristo. As perguntas das meninas, por vezes complexas, trazem novos contornos para o estudo, e não é raro deixá-lo inacabado, posto que as respostas direcionam para outras porções das Escrituras. Considero estas reuniões diárias como um pequeno facho de luz, de baixa intensidade, mas forte o suficiente, a iluminar nosso barco familiar em meios às trevas dessa vida. Os efeitos em longo prazo são perceptíveis.
Em algumas raras ocasiões, o objetivo de unir por meio do estudo, é suplantado por uma cadeia improvável de eventos, com resultados surpreendentes e inusitados, a ponto de tornar parte permanente da história da família, e a reforçar a união por meio da lembrança comum – a ser recontada muitas vezes nos anos seguintes, de forma cada vez mais dramática. Em março de 2015, experimentamos uma dessas situações.
***
São 19h30, o clima está ameno devido a uma refrescante chuva. A mesa do jantar está preparada na varanda gourmet, de frente para o gramado dos fundos, e uma gostosa feijoada está sendo posta. Sentamo-nos, o cheiro de feijão quentinho a penetrar nas narinas aguça o apetite. Antes da oração, Naomi, minha caçula à época com 10 anos, aponta o dedo e dá um gritinho:
- Uma barata!
- Onde? – e todos olham na direção de seus olhos.
- Ali, ali!! – e aponta o dedo. Com calma, minha esposa busca o mata-inseto aerossol e procura a dita-cuja para dar um jato mortal.
- Ela está indo na direção de vocês! - avisa com calma ainda mais mortal.
- Onde? Onde? – e automaticamente Naomi já sobe no banco, Mitca, minha primogênita com 12 anos, já se prepara para correr e eu levanto as pernas debaixo da mesa.
- Não se preocupem, ela foi para baixo do banco. Peguei! – e ouvimos o fsss do produto.
Aos poucos as meninas se aquietam. Sentamo-nos novamente e oramos. Quando já estamos nos servindo, novo grito:
- Outra barata! Ali! Ali! – e novamente Naomi aponta o dedo, desta vez ao longe, na direção da churrasqueira. Ato reflexo, sobe no banco, acompanhada da Mitca, retesada em sua cadeira à mesa. Eu continuo sentado e refreio o ímpeto de levantar as pernas. Novamente, minha esposa se levanta e rapidamente lança um mortífero jato no asqueroso inseto. O tranquilizador fsss penetra em nossos ouvidos. A paz é restabelecida à mesa
- Duas baratas! Que nojo! – pontua Naomi.
- Deve ser devido à chuva. Vieram do gramado – rebato, à guisa de informação, para acalmar os ânimos, porém preocupado com o ataque das baratas. À mente, filmes sobre aranhas gigantes e insetos asquerosos pululam em meus pensamentos.
Terminamos o jantar. Prepararmos a mesa para o estudo bíblico. A passagem da noite será em 1 Jo 3.16-18, e farei uma breve comparação com Jo 3.16. Peço para as garotas lerem, cada uma, um versículo. Antes que possa começar a explanação, o pé da esposa roça mui levemente nos dedos do meu pé esquerdo. Ainda com a imagem das baratas em mente, retraio violentamente o pé, acompanhado de um brusco levantar do corpo, com braços arqueados, e um grito surdo de argh, dando com o calcanhar no banco. Imediatamente a Naomi sobe no banco, o rosto retorcido em medo e esgar de nojo, Mitca, como uma mola, quase pula para cima da cadeira e se possível da mesa, pupilas dilatadas feito um gato, e a Elaine solta um gritinho de susto, mãos ao coração, meio levantada, olhando assustada em minha direção. Na confusão do momento vêm os gritos:
- Barata!! – e enfio a cabeça debaixo da toalha, esperando não ver o repugnante bicho, mas determinado a encontrá-lo.
- Barata? Onde? Onde? – pergunta com os nervos à flor da pele, Naomi.
- Cadê, cadê? – repete agoniada, Mitca.
- Que isso! – fala baixinho, a esposa assustada com meus movimentos e olhos a perscrutar o chão.
Ao olhar com calma embaixo da mesa, percebi o engano. Envergonhado, anuncio:
- Não era barata. Era apenas o pé da mamãe que tocou no meu dedinho. Desculpem.
Aos poucos, sem graça, cada um volta à sua posição. Nenhuma palavra é dita. Há um silêncio profundo na mesa. Todos estão carregados de vergonha, pela simples menção de um ortóptero imaginário. Elas esperam que eu comece a explanação. Na mente não consigo remover a imagem congelada das três em reação à minha explosão. Respiro fundo e começo:
- Bem, ontem nós falamos sobre quem está na luz e nas trevas e.... Buahahahahahahahahahhahahahahahah!!!
E caio descontroladamente na risada. Instantaneamente as três começam a rir em um acesso de riso. Continuamos a rir até às lágrimas. Como eu não consigo gargalhar (o que raramente faço), sem fechar a laringe e ficar sem ar, começo a tossir de forma esquisita, quase chiada, o que leva a novas gargalhadas. Com dificuldades, enxugando as lágrimas, peço:
- Chega, chega... vamos começar o estudo – Respiro fundo e tento não lembrar da expressão de cada uma delas – Como eu estava dizendo...
- Buahahahahahahah!!! – Desta vez foi a Mitca a cair descontroladamente no riso, o que força a todos a nova sessão de gargalhadas e mais lágrimas vertidas. Estou pedindo misericórdia ao Senhor, pois já quase não consigo respirar e a vontade de rir não cessa.
Com muito custo nos acalmamos, e respirando fundo, pude prosseguir o estudo. Evitei, contudo, olhar mais detidamente as três, com medo de novo acesso. Sei que nunca mais esqueceremos este estudo.
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Como já dito, há inúmeras estratégias para manter uma família unida durante as ondas e vagalhões que assolam os anos da vida em comum. Há de tudo, desde os rituais alimentares básicos, programas realizados sistematicamente, até atividades em comum. Famílias inteligentes e interessadas, lançam mão de várias estratégias, e estão sempre procurando novas formas de curtirem a alegria de ser e estar em família. Um susto devido a uma barata imaginária é, sem dúvida, uma delas. Experimente!
Um alegre e assustado abraço a todos.
NEle...
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Kelson Mota T Oliveira, congrega na Igreja Batista Constantinopolis, Manaus AM.
Palestrante, professor, pregador, escritor com 2 livros publicados.
Responsável por um programa na ConstantTV sobre fé e ciência.
É casado e tem duas filhas alegres e curiosas.
Doutor em Físico-Química pela IQSC-USP, na área de Química Teórica/Mecânica Quântica Molecular.
Desde 1992 é professor de carreira (GQTC-UFAM/CNPq).
Atual vice-presidente da Sociedade Brasileira de Design Inteligente (TDI-Brasil).







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