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A crise da evangelização e o desvio político nas igrejas


Há, hoje, uma crise evidente na evangelização no Brasil, alimentada por um desvio crescente em direção à política ideológica - um fenômeno que já alcança até setores historicamente conservadores do meio batista. Nos últimos anos, consolidou-se nas igrejas evangélicas, inclusive entre nós, uma confusão preocupante: a fusão da teologia com ideologia. O evangelismo vem sendo substituído pela militância; a missão da Igreja, por projetos de poder alheios à doutrina histórica que se afirma defender.

 

Pastores chamados a zelar pela Palavra passaram, em muitos casos, a atuar como operadores políticos. Púlpitos transformaram-se em espaços de retórica de “guerra cultural”. Comunidades inteiras foram empurradas para trincheiras partidárias, como se o avanço do Reino de Deus dependesse de eleições, bancadas religiosas, da “consagração” de governantes ou da aprovação de leis que favoreçam aos evangélicos.

 

Entre os batistas - especialmente aqueles que, como nós, professam uma leitura dispensacionalista das Escrituras - essa distorção assume contornos ainda mais graves. Ela nega fundamentos bíblicos centrais: a distinção entre Israel e Igreja, o caráter espiritual do Reino presente, a separação entre Igreja e Estado e a centralidade absoluta do evangelho como missão primordial.

 

Confundir Israel com a Igreja é negar o Novo Testamento

 

A tradição teológica batista, em especial em sua expressão dispensacionalista, sempre foi clara ao afirmar que as promessas bíblicas territoriais e nacionais pertencem a Israel - não à Igreja. O apóstolo Paulo distingue explicitamente judeus, gentios e Igreja (1 Co 10.32). Em Ef 2.11-22, o muro de separação é derrubado para a salvação, mas isso não revoga as promessas nacionais feitas a Israel. Romanos 11 afirma, de maneira inequívoca, que Deus ainda cumprirá - no futuro - seu plano para o povo judeu.

 

Diante disso, impõe-se a pergunta: como pode a Igreja legitimar mandatos legislativos “ungidos” ou se atribuir a missão de “restaurar a nação” por meio da força política? A resposta do Novo Testamento é direta: não pode. O Reino anunciado por Cristo “não é deste mundo” (Jo 18.36), e a missão confiada à Igreja não é reformar o Estado, mas fazer discípulos (Mt 28.19-20).

 

A Igreja vive sob a dispensação da graça, não da lei

 

Um dos equívocos mais recorrentes entre líderes evangélicos contemporâneos é a leitura do Antigo Testamento como se ainda estivéssemos sob a teocracia israelita. As Escrituras, porém, são explícitas: “A lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo.” (Jo 1.17). E ainda: “Não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.” (Rm 6.14).

 

Na dispensação da graça, Deus opera por meio da Igreja, não por meio de governos nacionais. Nem mesmo Israel, como nação, está diretamente relacionado à atual dispensação. É por isso que os batistas, historicamente, defenderam princípios inegociáveis: liberdade religiosa para todos, separação entre Igreja e Estado, evangelização pela persuasão - jamais pela legislação - e púlpitos livres de direcionamento político.

 

Quando líderes evangélicos passam a defender o oposto - um Estado confessional, leis para “proteger a fé cristã” ou presidentes apresentados como “enviados de Deus” - o erro não é apenas político. É, antes de tudo, um grave erro teológico.

 

As promessas terrenas pertencem a Israel e serão cumpridas no tempo determinado por Deus

 

No dispensacionalismo ensinamos que a 70ª semana de Daniel (Dn 9.24-27) é futura, identificada com o período da Tribulação, denominada “angústia de Jacó” (Jr 30.7). A Igreja será afastada deste mundo antes desse tempo (1 Ts 4.16-17; Ap 3.10).

 

As promessas de restauração nacional não dizem respeito a nenhum grupo evangélico de qualquer nacionalidade, mas a Israel. O governo messiânico se estabelecerá no Milênio, quando Cristo reinará como Príncipe da Paz (Is 9.6-7; Ap 20.1-6). A paz pela qual somos exortados a orar - “Orai pela paz de Jerusalém” (Sl 122.6) - não virá por votações, alianças, pactos de nações e muito menos por iniciativas dos cristãos. Ela se concretizará quando Jesus, o Messias, vier na sua segunda vinda para reinar. O arrebatamento encerra a dispensação da Igreja. A tribulação será o cumprimento da septuagésima semana de Daniel e a segunda vinda de Cristo possibilitará a conversão do remanescente judeu, cumprindo o que está escrito em Rm 11.25-27; Is 2.1-4; Ez 37.14. Em Apocalipse 7.1-8, vemos que através dos 144 mil judeus selados, o evangelho do Reino será pregado a todas as nações (Mt 24.14). Isso possibilitará a salvação, não apenas de Israel, mas de pessoas de todas as nações dentro da tribulação.

 

Tentar antecipar esse cenário por meios políticos é erro escatológico e usurpação da agenda divina para o Milênio.

 

A politização do púlpito corrói o testemunho da Igreja

 

O Novo Testamento ensina: “Amai os inimigos.” (Mt 5.44). “A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor.” (Rm 13.8). “Honrai a todos.” (1 Pe 2.17). “Se depender de vós, tende paz com todos.” (Rm 12.18).

 

Entretanto, o que se observa com frequência é o oposto. Muitas igrejas já não são criticadas pela mensagem da cruz, como nos tempos apostólicos, mas pela agressividade de seus líderes, pelo sectarismo ideológico, pelo ódio disseminado nas redes sociais e pela demonização sistemática de quem pensa diferente. A marca do amor (Jo 13.35) cedeu lugar ao espírito de cruzada. O evangelho foi eclipsado pela política e a Igreja passou a ser vista, pela sociedade, como mais um grupo de pressão ideológica.

 

Um chamado ao retorno: o evangelho acima do palanque

 

A fé batista foi edificada sobre fundamentos sólidos: a autonomia da igreja local, a centralidade das Escrituras, a liberdade de consciência, a separação entre Igreja e Estado, a missão evangelística e discipuladora e a esperança escatológica no retorno de Cristo para a Sua Igreja. Nenhum desses pilares é compatível com o modelo de engajamento político militante que hoje domina o evangelicalismo de massa.

 

Por isso, este é um apelo claro, duro e necessário aos líderes batistas: não abandonem o evangelho. Retornem à teologia. Retornem à missão. Pastor não é cabo eleitoral. Púlpito não é palanque. Igreja não é curral eleitoral. E Cristo não é mascote ideológico de nenhuma posição política.

 

O evangelho não precisa de bancada. Precisa de fidelidade a Cristo. Se ainda afirmamos que “a Bíblia é a única regra de fé e prática”, então façamos valer essa confissão: demos a César o que é de César, a Deus o que é de Deus e aguardemos o verdadeiro Rei - que não será eleito por homens, mas virá para cumprir tudo o que prometeu.

 

  • Até lá, a Igreja não reina: PREGA.

  • Não governa: ORA.

  • Não impõe: AMA.

  • E não legisla: EVANGELIZA.

 

Porque, como afirma o apóstolo Paulo: “Nossa cidadania está nos céus, de onde esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.” (Fp 3.20).


 

 

 

 

 

 

 

3 comentários


Convidado:
05 de jan.

MARANATA!!!

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Convidado:
02 de jan.

Excelente matéria. Fui muito edificado. Gratidão amados irmãos e colegas.

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Manoel
01 de jan.

Muito bom artigo. Compartilho desta linha de pensamento. Tenho uma pergunta: O dispensacionalismo progressivo teria influenciado esta posturas dos batistas tradicionais?

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