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A violência contra mulher e os desafios para a igreja

O tema violência contra mulher ainda é um assunto muito debatido, apesar dos avanços normativos e legais no reconhecimentos dos direitos da mulher, da criminalização do feminicídio e da penalização legal da violência contra mulher. Como um fenômeno mundial, atinge todas as classes sociais, sendo um tema delicado e complexo, devido a fatores culturais, econômicos, estruturais e sociais.

 

O devir feminino e sua condição histórica vinculada à privacidade ou vida doméstica, definiu papeis sociais para as mulheres, e todo esse processo é atravessado por relações de gênero, etnia, religiosidade, territorialidade, entre outros aspectos. Na construção do devir feminino, diversos aspectos da vida da mulher perpetuaram condições de violência, cuja narrativa, muitas vezes é naturalizada e legitimada. 

 

A onda de violências pode ser expressa pelo machismo, racismo, xenofobia, a ideia de propriedade privada, ciúmes, entre tantos outros que podem levar ao feminicídio. A violência contra mulher, além de ser considerado crime, se tornou um problema de saúde pública, pois os danos à integridade física e mental necessitam de tratamento continuado.

 

Sabemos que esse tema é pouco anunciado nos púlpitos das igrejas cristãs tradicionais e, no entanto, a igreja precisa despertar para a transversalidade e trabalhar essa temática que afeta milhares de mulheres e homens que servem a Deus. Muitas vezes, por falta de orientação e esclarecimento prefere-se o silencio, apesar das dores físicas e mentais, com reflexos na vida espiritual.

 

O objetivo deste artigo é provocar reflexão sobre a violência contra a mulher, a fim de buscar compreender como esse fenômeno tem afetado as mulheres cristãs, e como podemos enfrentar esse desafio, sabendo que há aspectos da religiosidade que podem contribuir para a manutenção da violência contra a mulher.

 

O Brasil é um país violento quando se trata do trato com a mulher e os dados estatísticos são alarmantes. Apenas nos dez primeiros meses de 2023, aqui no Brasil, foram registrados 74 mil denúncias de violência contra mulheres através do telefone 180. Dentre os tipos de denúncias, estão, pela ordem, violência psicológica (72.993), violência física (55.524), violência patrimonial (12.744), violência sexual (6.669), cárcere privado (2.338), violência moral (2.156) e tráfico de pessoas (41). Os dados dão conta que a maioria dos casos, cerca de 73,86% ocorre na residência da vítima e de familiares (Brasil, 2023).

 

As mulheres declaradas evangélicas já estão ganhando visibilidade em termos de estatísticas e, o que me preocupa é, como a igreja está tratando essa expressão da questão social que é muito maior do que imaginamos? Qual tem sido o papel da liderança religiosa diante da situação?  Jesus nos chamou para uma vida com abundância (Jo 10.10), mas será que mulheres cristãs que se submetem a um casamento dolorosamente difícil estão experimentando a vida abundante que Jesus veio dar?

Os relacionamentos abusivos tem atingido 40% das mulheres cristãs. Vilhena (2009) aponta em sua pesquisa que 40% das mulheres que sofreram violência doméstica se declararam evangélicas e problematiza os elementos que refletem na violência e consequentemente no silêncio dessas mulheres, tais como a ideia de subalternidade, medo, dependência financeira e emocional, narrativas de validação religiosa que acabam  culpabilizando  a mulher imbuída no discurso de “falha na missão divina”, fracasso por não ter sido uma mulher virtuosa;  a inferiorização da mulher, a demonização do mal na qual a violência do agressor é combatida pelo poder da oração.

 

O lugar que era para ser seguro, de aconchego, onde o Espírito Santo deveria ser manifesto, primeiramente através dos seus frutos, tem sido o lugar de tormento e crueldade para muitas mulheres, que podem causar danos irreparáveis na vida e saúde das vítimas.

O sagrado matrimônio que deve ser mantido a todo custo é um dos fatores que, muitas vezes, faze certas mulheres se submeterem, mesmo vivendo uma vida de terror em seus lares. Silenciam em prol da má interpretação da submissão. Será que Jesus Cristo está no centro de um relacionamentos de sofrimento? Que amor é esse que agride, oprime, maltrata?

 

A violência contra a mulher é crime e devemos parar de naturalizar, romantizar, espiritualizar, e tentar invisibilizar a realidade. O agressor, ao achar justificativas para tal ato, vai continuar. A violência contra mulher pode custar vidas, e as igrejas deves estar preparadas para realizar diferentes mediações que potencializem   caminhos resolutivos. Os pastores e líderes nas igrejas têm um papel imprescindível no combate à violência contra a mulher e devem estar preparados para enfrentar esse problema.

 

A violência contra a mulher é uma verdadeira ameaça que pode levar à destruição da família. Não há felicidade e amor aonde há violência. O suprassumo do evangelho é o amor. Deus entregou seu filho para nos salvar por amor (Jo 3.16; Rm 5.8). Vale a pena atentar para 1Co 13.4-7).

 

Precisamos aprender a lidar com essas questões que afetam as mulheres cristãs e acolhê-las, ajudá-las a enfrentar esse problema que pode custar a vida. Precisamos quebrar os estigmas das tradições que permitem a violência contra a mulher, que as fazem aceitar viver uma vida infeliz, e, sobretudo, uma vida na qual não se vive o amor de Cristo.

 

Relacionamentos são desafiadores, e conflitos podem surgir durante a caminhada, pois isso faz parte da construção de relacionamentos saudáveis. Mas Deus abomina a violência (Sl 11.5; Pv 6.18) e nunca devemos defender ou justificar o que Deus abomina.

 

A natureza humana só pode ser transformada pelo poder de Jesus Cristo e há poder no nome de Jesus, há transformação em Cristo Jesus, há cura física, emocional e espiritual em Cristo Jesus. Em Cristo somos novas criaturas e, se ao longo da caminhada não entregamos o nosso querer, nossa vontade e desejos a ele, nada poderá ser feito. Que sejamos sensíveis e não omissos em relação à questão da violência contra a mulher.

 

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Ana Paula Pinto é membro da Igreja Batista Independente em S.A. Leverger MT

Formada em Serviço Social (UFMT), Mestre em Políticas Sociais (UFMT)

Estudante de pedagogia (UFMT), servidora pública municipal.

 

REFERÊNCIAS

A BÍBLIA SAGRADA: Antigo e Novo Testamentos. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida, ed. rev. e atualizada no Brasil, 2ª ed., São Paulo, Sociedade Bíblica do Brasil, 1993, 309 p

BRASIL. Ligue 180 registra mais de 74 mil denúncias de violência contra mulheres nos primeiros 10 meses de 2023. Disponível em:  https://www.gov.br/mulheres/pt-br/central-de conteudos/noticias/2023/novembro/copy_of_ligue-180-registra-mais-de-74-mil-denuncias-de-violencia-contra-mulheres-nos-primeiros-10-meses-de-2023. Acesso em 30/11/2023

VILHENA, Valeria Cristina. Pela Voz das Mulheres: uma análise da violência doméstica entre mulheres evangélicas atendidas no núcleo de defesa da convivência contra mulher-Casa Sofia. Dissertação de Mestrado, Universidade Metodista de São Paulo. São Bernardo do Campo, 2009.  Disponível em: http://tede.metodista.br/jspui/bitstream/tede/529/1/Valeria%20Vilhena%20Mestrado.pdf. Acesso em: 30/11/2023

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