Inteligência Anulada
- Kelson Mota T Oliveira

- há 24 minutos
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Como a rejeição a Deus tem comprometido a própria racionalidade científica.
Este artigo examina criticamente explicações naturalistas sobre a origem do universo, da vida, da mente e da informação no DNA. Ao analisar declarações de cientistas e filósofos contemporâneos, o autor argumenta que muitas respostas materialistas entram em conflito com princípios fundamentais da ciência e da lógica. A reflexão aponta que a rejeição de um Criador pode gerar inconsistências intelectuais e empobrecer a compreensão da realidade. Escrito por Dr. Kelson Mota T. Oliveira, professor de carreira da Universidade Federal do Amazonas desde 1992, na área de Físico-Química. É mestre e doutor em Físico-Química pela Universidade de São Paulo (IQSC-USP), na área de Química Teórica/Mecânica Quântica Molecular.

“... porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato.Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos” (Rm 1:21-22)
Em minha graduação tive a oportunidade de estudar com um professor de bioquímica defensor da hipótese que a vida se originara ao acaso, em uma sopa química primordial, quente, em um ambiente vulcânico (aliás, uma narrativa em voga até hoje). Quando questionado sobre as instransponíveis dificuldades químicas deste cenário, se animava em propalar explicações elaboradas, mas que contrariavam os próprios fundamentos da química que ensinava em sala. E quando confrontado com estas incoerências se limitava a responder: “aceite, foi assim que ocorreu. Isso é o melhor que a ciência tem para dar”. Por ser ele um homem de ciência, esperava uma resposta coerente à altura da importância do tema, mas esta nunca vinha. Sua posição na ciência sugeria lucidez; suas respostas, nem sempre. Confesso que por vezes me surpreendi com sua falta de discernimento quando o assunto girava sobre temas dessa magnitude. Na época tinha por certo que cientista era sinônimo de inteligência. Descobri, com alguma desilusão, que nem sempre é o caso.
Avanço científico não significa aumento da inteligência humana
Vivemos em uma época em que a humanidade tem experimentado os frutos dos grandes avanços e conquistas científicas. Por cerca de 300 anos ininterruptos, a ciência moderna tem galgado, palmo a palmo, o monte da ignorância para trazer de lá o fogo do conhecimento. Carros elétricos, internet onipresente, computação quântica, smartphones, foguetes que fazem baliza, telescópios espaciais, entre tantas outras maravilhas, podem dar a impressão que a inteligência humana também se desenvolveu no mesmo ritmo e criar a falsa percepção que os cientistas de hoje são mais brilhantes que seus antecessores (e, por tabela, a sociedade atual mais esclarecida que as de outrora). Mas é apenas impressão. Uma perigosa impressão.
Sendo muito claro, a ciência não avança com o aumento da inteligência, e sim com o acúmulo do conhecimento adquirido por década e décadas de experimentação via tentativa e erro. De vez em quando alguma mente mais brilhante traz à lume um novo paradigma e, consequentemente, novas décadas de experimentação solidificam os novos parâmetros de conhecimento (ou dissolvem concepções erradas). O saber científico, nesse aspecto, avança, mas a inteligência humana não. Por inteligência, refiro-me à capacidade de adquirir, compreender e aplicar conhecimento, bem como as diversas habilidades para resolver problemas, adaptar-se ao ambiente e, por fim, lidar com situações novas ou complexas.
O conhecimento científico cresce, mas a mente humana continua limitada
A dificuldade reside não na capacidade para lidar com essas informações, mas no limite que há para uma mente humana adquirir, dominar e acumular conhecimento. Um químico de nossos dias, mesmo que seja excelente, não tem em sua mente o conhecimento acumulado de quase 350 anos da química moderna e, muito provavelmente, não terá domínio completo de todos os processos básicos que resultaram na leis dos gases, das leis ponderais da matéria, das minúcias envolvidas na busca de uma lei periódica dos elementos, etc. É improvável que entenda todos os parâmetros físicos envolvidos na construção de equipamentos como RMN, espectroscopia de massas, EPR ou microscopia de força atômica. O que ele tem, que os químicos de outrora não tinham, é o acesso fácil ao conhecimento acumulado, catalogado, disponível e depurado por anos de experimentos e revisão por pares. Não é questão de inteligência, é de informação disponível. E, no entanto, em alguns aspectos, o cientista de hoje não consegue ombrear com os homens da ciência dos séculos XVIII, XIX e início do XX, dada a especialização crescente do conhecimento científico frente ao domínio limitado das ciências básicas.
O problema da cosmovisão naturalista
Portanto, a inteligência do cientista moderno não tem correlação direta com os avanços da ciência, e em alguns casos demonstra um claro retrocesso. Um exemplo emblemático é o dos pesquisadores que defendem uma cosmovisão naturalista. Como todos sabem, naturalistas não medem esforços em explicar esse mundo reduzindo tudo ao material, às interações aleatórias da matéria, rejeitando qualquer evidência que aponte para a existência de Deus ou de uma realidade metafísica e transcendental. Esse posicionamento, longe de demonstrar um intelecto superior, manifesta um pensamento retrógado e irracional. Posso provar.
Sete grandes perguntas que desafiam o naturalismo
Considere sete grandes questões respondidas por sumidades da ciência:
Qual a origem do universo? O famoso físico Stephen Hawking responde: “Porque existe uma lei como a gravidade, o Universo pode e irá criar-se do nada.”[1]
Como a vida surgiu da matéria não-vida? Alexandr Oparin, o pai da abiogênese, afirma sem titubear: “Não há diferença fundamental entre um organismo vivo e a matéria sem vida. A complexa combinação de manifestações e propriedades características da vida deve ter surgido como parte do processo de evolução da matéria.”[2]
De onde veio a informação presente no DNA dos seres vivos? Richard Dawkins, o zoólogo britânico, amado pelos ateus, fala cheio de rodeios: “O Universo não é nada mais do que uma coleção de átomos em movimento, os seres humanos são simplesmente máquinas de propagação do DNA, e a propagação do DNA é um processo de autossustentação. É a única razão de viver de todos os objetos vivos”[3]
Qual a origem da mente? Daniel Dennett, venerado por sua filosofia da mente, e um dos quatro cavaleiros do neoateísmo, responde sem qualquer pudor: “Uma mente compreensiva poderia, de fato, ter surgido de um processo irracional de seleção natural… Sistemas naturais podem criar ‘competência sem compreensão’, isto é, situações em que ações sofisticadas ocorrem sem que o indivíduo ou a máquina envolvida entendam as razões das ações tomadas.”[4]
Por que existe um universo contingente e inteligível? O físico teórico estadunidense, Sam M. Carrol, tenta explicar: “A física moderna sugere que o universo pode existir por si só como um sistema autocontido, sem nada externo para criá-lo ou sustentá-lo. Mas pode não haver uma resposta absoluta para o porquê de sua existência. Eu argumento que qualquer tentativa de explicar a existência de algo em vez de nada deve, em última análise, se basear em um conjunto de fatos brutos; o universo simplesmente é, sem causa ou explicação definitiva.”[5]
Por que o universo se mostra finamente ajustado para manter vida? O físico de partículas e filósofo, Victor John Stenger, desconversa: “O universo não está ajustado a nós; nós estamos ajustados ao nosso universo particular. Alguma forma de vida poderia ter evoluído em uma faixa de parâmetros que não é infinitesimal, como frequentemente se afirma”.[6]
Qual o sentido e a finalidade do universo? Novamente, com a palavra, Richard Dawkins: “O universo que observamos tem precisamente as propriedades que deveríamos esperar se, no fundo, não houvesse nenhum projeto, nenhum propósito, nenhum mal, nenhum bem, nada além de indiferença cega e implacável.”[7]
Quando explicações científicas entram em conflito com a própria ciência
Todas as respostas acima contrariam de forma grosseira algum fundamento básico da ciência, seja química, física, matemática, lógica ou biologia (ou todas elas). São respostas inconsistentes com o conhecimento científico acumulado durante os últimos séculos. Não é preciso muita reflexão para notar a inconsistência. Por exemplo, para Hawking, é a gravidade que cria o universo do nada (do nada!). Qual o problema? A gravitação é uma lei que o próprio modelo cosmológico padrão não pode descrever de forma funcional na singularidade primordial que supostamente criou o universo. Hawking certamente não desconhecia essa limitação. Se não era funcional, como poderia ter sido a causa criadora? Oparin teve argumento semelhante ao defender o disparate que a vida surgiu da não-vida e que a matéria inanimada não é diferente de matéria sem vida! Se não tem vida, como gerou vida? A incoerência aumenta ao afirmar que a vida surgiu espontaneamente da matéria, uma posição que ignora fundamentos químicos básicos e contraria a biologia, que historicamente, nunca sustentou a geração espontânea como origem da vida. Nas palavras de Wald: “Basta contemplar a magnitude dessa tarefa para concluir que a geração espontânea de um organismo vivo é impossível. No entanto, aqui estamos”.[8]
O enigma da informação no DNA
As incongruências da inteligência naturalista não param aí. O mistério da origem da informação no DNA em organismos vivos, um dos mais cabulosos enigmas da ciência, para Dawkins é apenas devido ao movimento aleatório dos átomos do universo em meio a um processo que se cria e se sustenta a si mesmo. O zoólogo joga por terra tudo o que se sabe sobre a teoria da informação e os fundamentos de probabilidade e estatística. É sabido que aleatoriedade não cria informação (gera apenas ruído). Informação implica em codificação, tradução, significado e contexto entre um emissor e um receptor. Ainda que uma máquina possa propagar e armazenar informações, ela não é a origem da informação, apenas o meio. Se há informação complexa e especificada, é consenso científico que há inteligência envolvida. Pelo visto, para Dawkins, isso não é condição necessária. Imagino que a essa altura já tenha provado meu ponto, mas a demonstração de irracionalidade vai além.
O paradoxo da mente surgindo do irracional
Dennett, em uma espantosa demonstração de inépcia, afirma que a mente racional é oriunda de processos brutos, cegos, puramente irracionais, sem qualquer razão ou significado anterior. O irracional, que por definição é algo diametralmente contrário à razão, para o materialista é o fundamento do racional. Nesse esquema, a razão não é algo real, mas um tipo de simulacro oriundo da seleção natural. O só considerar a possibilidade dessa ordem bizarra já demonstra uma grave inconsistência de pensamento. É de pasmar que um filósofo do patamar de Dennet defenda um argumento que destrói a confiabilidade de qualquer conhecimento, inclusive o dele. Nas palavras C. S. Lewis: “A menos que a razão humana seja verdadeira (e não fruto do acaso), nenhuma ciência pode ser verdadeira”.[9] Defender que sistemas naturais brutos criam competências sem qualquer compreensão é, no mínimo, um sinal de clara estupidez ou de tremenda má fé, ou ambos, para não usar um termo mais duro.
O problema do universo sem causa ou propósito
A situação fica ainda mais interessante (e bizarra) quando a pergunta não admite uma resposta naturalista. Sam Carrol, venerado pelos ateus, ao ser questionado sobre o fato do universo ser compreensível, simplesmente responde evasivamente: o universo é sem causa, sem explicação, sem significado. Ao lançar fora a necessidade de explicação, reduz a ciência ao nível do mistério bruto, do subjetivo, de uma realidade sem sentido, da anti-ciência. Carrol parece ter esquecido o espanto de Einstein quando confrontado com a mesma pergunta: “A coisa mais incompreensível sobre o universo é que ele é compreensível”.[10] De forma semelhante, quando indagado sobre o impressionante ajuste fino do universo, que aponta indubitavelmente para uma causa inteligente, Stenger simplesmente inverte a situação e, cinicamente, afirma que o ser humano é que é ajustado ao universo e ponto final, sem dar bola para todos os limites matemáticos quebrados nessa bizarra inversão. Por fim, Dawkins, quando inquirido acerca do sentido do universo, simplesmente nega que haja projeto, propósito ou sentido, somente matéria indiferente. Sequer considera a eterna busca humana por transcendência, e se abriga no reducionismo puro e simples. Sua inteligência (ou falta dela) não parece processar que matéria não ama, não questiona, não investiga, não evolui, não anseia, não tem moral, é cega, irracional, sem propósito e direção e, portanto, incapaz de lastrear as ousadas asseverações que ele mesmo faz. O reducionismo materialista não é tão somente um erro lógico e intelectual, é um claro desvio moral.
A crítica bíblica à falsa sabedoria humana
O que vemos em todas essas respostas, a despeito dos avanços científicos, não é inteligência, e sim irracionalidade. Não são hipóteses baseadas em evidências, são imposturas científicas. Não é avanço da ciência, mas desespero tolo em suprimir por todos os meios os vestígios de Deus na criação. Defender que o universo existe, mas não tem causa, que a matéria existente é fruto do nada, que o irracional gerou o racional, que vida se origina da não-vida, que a informação não demanda inteligência, etc, é prova evidente de um intelecto um tanto tolo, incoerente e insensato. “Diz o tolo em seu coração: Deus não existe” (Sl 14.1 NVI 2011). A cegueira da mente é o alto preço pago pelo materialista no altar do ateísmo. Todavia essa cegueira não é falta de luz, e sim de disposição e vontade para aceitar o que a criação revela.
A inteligência anulada pela rejeição de Deus
A recusa sistemática de um Criador em meio a tantas evidências a favor, longe de ser uma atitude científica, é uma espécie de suicídio intelectual que se caracteriza por um modo desarrazoado de pensar, uma anti-inteligência que se autolimita, e, em certo sentido, se anula. “Porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios” (Rm 1.21). As conclusões que tal mente pode chegar são nulas, inúteis, sem efeitos. Mesmo mentes brilhantes, quando limitadas a uma cosmovisão estritamente material, acabam por esvaziar o próprio fundamento da razão que utilizam, produzindo interpretações que carecem de sentido último e coerência plena. São, portanto, inteligências anuladas, eclipsadas por uma ilusão de orgulhosa sabedoria. Como bem escreveu o apóstolo Paulo, “Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos” (Rm 1.22). Meu professor de bioquímica era um indivíduo perspicaz, mas quando o assunto remetia a algo além da matéria, suas respostas eram frágeis e revelavam uma inteligência anulada, esvaziada de discernimento.
Assim, a recusa do Divino não apenas empobrece a compreensão da realidade, mas também compromete a própria inteligência que a sustenta — e, embora tal decisão permaneça no âmbito da liberdade pessoal, suas consequências não se limitam ao tempo presente, mas ecoam na eternidade.
A decisão final diante das evidências da criação
O cientista minimamente honesto, ao avaliar rigorosamente os dados e evidências, inevitavelmente se defrontará com indícios que remetem aos atributos e poder de Deus. O que ele fará de posse deste conhecimento é de cunho pessoal, mas seus desdobramentos são eternos. Ou mostrará uma inteligência que se humilha perante as evidências e se rende ao Senhor, Criador de todas as coisas, ou uma inteligência anulada, orgulhosa de sua sabedoria materialista, porém incapaz de perceber até os fatos mais simples manifestos na natureza. A recusa sistemática de Deus não apenas empobrece a compreensão da realidade, mas também compromete a própria inteligência que a sustenta. Cada indivíduo é livre para anular ou acolher as provas inequívocas da existência do Divino, mas não para escapar das consequências intelectuais e eternas dessa escolha.
REFERÊNCIAS - CITAÇÕES
[1] Stephen Hawking e Leonard Mlodinow. The Grand Design. Ed. Bantan, 2012.
[2] Aleksandr I. Oparin. A origem da vida. Ed. Global, 9ª edição, 2018.
[3] Richard Dawkins. Waking Up in the Universe. BBC Christmas Lectures Study Guide. London, BBC 1991.
[4] Daniel Dennett. Das bactérias a Bach e vice-versa: a evolução das mentes. Edições 70, 2021.
[5] Sean M. Carroll. Why Is There Something, Rather Than Nothing? ArXiv:1802.02231, 02/2018.
[6] Victor J. Stenger, The Fallacy of Fine-Tuning: Why the Universe Is Not Designed for Us. Ed. Prometheus, 2011.
[7] Richard Dawkins. O rio que saía do Éden: uma visão darwiniana da vida. Ed. Rocco, 1996.
[8] George Wald, “The Origins of Life”. The Physics and Chemistry of Life, 1955.
[9] C. S. Lewis. Miracles: A Preliminary Study. London: Geoffrey Bles, 1947.
[10] A. Einstein. Physics and Reality. Journal of the Franklin Institute. 221(1936) 349–382.
O AUTOR
Dr. Kelson Mota T. Oliveira, é, desde 1992, professor de carreira da Universidade Federal do Amazonas, na área de Físico-Química. É mestre e doutor em Físico-Química pela Universidade de São Paulo (IQSC-USP), na área de Química Teórica/Mecânica Quântica Molecular. No campo interdisciplinar, foi professor convidado no Seminário Teológico Batista do Rio Grande do Sul, ministrando as disciplinas Apologética e Tópicos Especiais de Fé e Ciência, nos anos de 2008 a 2010. É escritor (com dois livros publicados e mais de uma centena de crônicas escritas), e líder do Grupo de Pesquisa em Química Teórica e Computacional (GQTC-UFAM/CNPq), e o atual vice-presidente da Sociedade Brasileira de Design Inteligente (TDI-Brasil). É membro da Igreja Batista Raízes, em São Carlos/SP, atuando em Manaus/AM, na igreja Batista Constantinopolis, como palestrante, pregador ocasional e responsável por um programa na ConstantTV sobre fé e ciência. É casado e tem duas filhas alegres e curiosas.
TEXTO ENVIADO PELO AUTOR.
TAMBÉM PUBLICADO EM VOLTEMOS AO EVANGELHO.
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