O Evangelho não precisa de selo externo: Imperialismo cultural e a urgência de honrar a teologia brasileira
- Edição JA

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Pr. Márcio Trindade
Há um imperialismo silencioso que atravessa o pastorado, as igrejas e até as escolas teológicas brasileiras. Ele não aparece em estatutos nem é ensinado explicitamente, mas se manifesta nos critérios de validação: quem é ouvido, quem é respeitado e quem precisa provar o dobro para ser levado a sério. Não é apenas uma questão de idioma - é, sobretudo, uma submissão simbólica a culturas imperialistas estrangeiras, tratadas como padrão de excelência, maturidade e autoridade espiritual.
Por ocasião das minhas pós-graduações, estudei em alguns dos seminários mais respeitados do Brasil: o Seminário Bíblico Palavra da Vida, as Faculdades Batistas do Paraná e o Seminário Teológico Servo de Cristo. Instituições sérias, com professores preparados, bibliografia sólida, rigor acadêmico e compromisso inequívoco com a Palavra de Deus e com a formação do caráter pastoral. Ainda assim, aprendi - não nas salas de aula, mas no ambiente eclesiástico - que, para muitos, isso parecia não bastar.
Existe uma lógica implícita que opera assim: se essas formações estivessem vinculadas a centros estrangeiros dominantes, se carregassem o imaginário de determinadas culturas hegemônicas, os mesmos conteúdos, os mesmos professores e os mesmos alunos seriam vistos de outra forma. Não por causa da exegese, mas por causa do “carimbo cultural”. Não pela fidelidade bíblica, mas pela procedência simbólica.
É por isso que provoca um sorriso irônico - quase um suspiro - imaginar como soariam aos ouvidos de muitos se fossem apresentados assim:
- Word of Life Bible Seminary - Atibaia, Brazil
(Seminário Bíblico Palavra da Vida)
- Baptist Faculty of Paraná
(Faculdades Batistas do Paraná)
- Servant of Christ Theological Seminary - São Paulo
(Seminário Teológico Servo de Cristo)
Ahhhh… se estivessem associados a essas culturas.
Talvez a escuta fosse mais atenta.
Talvez o currículo fosse considerado mais “robusto”.
Talvez o pastor formado ali fosse visto como alguém que “realmente estudou”.
Mas nada mudaria - exceto a percepção cultural.
O conteúdo seria o mesmo. Os professores, os mesmos. O rigor bíblico, o mesmo. A fidelidade às Escrituras, a mesma. O que muda é o filtro que insiste em confundir hegemonia cultural com autoridade espiritual e origem estrangeira com profundidade teológica.
Não se trata de rejeitar contribuições de fora. A teologia cristã sempre foi construída em diálogo global. O problema surge quando esse diálogo se transforma em dependência simbólica, e quando culturas estrangeiras passam a funcionar como critério de legitimidade. Quando um pastor brasileiro precisa de validação externa para ser respeitado internamente. Quando a teologia que nasce da nossa história, da nossa realidade e das dores do nosso povo é tratada como teologia de segunda classe.
Isso é injusto com nossos professores - homens e mulheres que dedicaram a vida ao estudo sério das Escrituras e formaram gerações inteiras de líderes com fidelidade bíblica e responsabilidade pastoral. É injusto com nossos seminários, que mantêm excelência acadêmica sem precisar importar identidade. É injusto com nossas igrejas, que são o verdadeiro laboratório teológico, onde a fé deixa o discurso e se torna cuidado de pessoas reais.
Honrar a teologia brasileira não é nacionalismo raso. É reconhecer que Deus age e ensina também a partir do nosso chão. Que a reflexão bíblica produzida aqui tem densidade, história e autoridade espiritual. Não precisamos vestir a cultura do outro para legitimar nossa vocação. A verdade do Evangelho não depende de centros hegemônicos.
O desafio contemporâneo é claro e urgente: a igreja brasileira precisa romper com o imaginário imperialista que mede valor espiritual pela procedência cultural. Precisamos valorizar nossas escolas, ouvir nossos mestres e respeitar nossos pastores - não porque se alinham a uma cultura dominante, mas porque são fiéis ao texto bíblico, ao caráter cristão e ao serviço pastoral.
O desafio não é importar prestígio.
É amadurecer o discernimento.
É libertar a teologia do fascínio pelo centro e reafirmar a autoridade que nasce da fidelidade.
É formar líderes que não busquem chancela cultural externa, mas autoridade na Palavra, no caráter e na vida vivida diante de Deus.
Quando a igreja brasileira aprender isso, não precisaremos mais suspirar dizendo “ahhhh se fosse…”.
Diremos, com serenidade e convicção: é - e isso basta.







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