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Cancelar ou Dialogar: Entre a polarização ideológica e a unidade na diversidade

Em tempos de radicalização política, guerras culturais e trincheiras ideológicas cada vez mais profundas, a pergunta que se impõe não é apenas sociológica ou política, mas essencialmente espiritual. Em relação ao próximo, devemos cancelar ou dialogar?


A resposta cristã a esse dilema não nasce das redes sociais, nem dos manifestos partidários, mas da Escritura e da própria história da Igreja.

 

Vivemos uma era em que opiniões divergentes são tratadas como ameaças existenciais. Discordar tornou-se sinônimo de trair, e dialogar passou a ser visto como concessão inadmissível. Nesse ambiente polarizado, a cultura do cancelamento surge como atalho emocional: elimina-se o outro para não ter de enfrentá-lo com argumentos, paciência e amor. Contudo, essa lógica é estranha ao evangelho.

 

A Igreja de Cristo jamais foi construída sobre a uniformidade, mas sobre a unidade na diversidade. Não falamos aqui das doutrinas fundamentais da fé cristã - inegociáveis -, mas das múltiplas visões culturais, sociais e até ideológicas que coexistem no Corpo de Cristo, enriquecendo-o.

 

Unidade não é uniformidade

 

O apóstolo Paulo afirma que “assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também é Cristo” (1 Co 12.12). A metáfora é clara: diversidade não é ameaça à unidade; é sua condição de existência. O mesmo princípio é reiterado em Efésios 4.1-6, onde a unidade do Espírito não anula as diferenças, mas as organiza sob um mesmo Senhor, uma mesma fé e um mesmo batismo.

 

A ausência de diversidade gera estagnação. Quando nos cercamos apenas de pessoas que pensam como nós, criamos uma bolha confortável, porém frágil. Ideias não são testadas, convicções congelam mas não amadurecem e a verdade corre o risco de ser confundida com consenso. “Assim como o ferro afia o ferro, o homem afia o seu companheiro” (Pv 27.17). O atrito, quando saudável, produz crescimento.

 

A Bíblia não apenas permite o diálogo; ela o exige. Buscar sabedoria implica ouvir, ponderar e discernir: “Inclina o teu ouvido à sabedoria e aplica o coração ao entendimento” (Pv 2.2). Sabedoria bíblica não é teimosia piedosa, mas humildade intelectual.

 

O perigo do radicalismo travestido de zelo

 

Se a diversidade é um dom, o radicalismo é sua perversão. Defender uma ideia de forma extremada, intolerante e beligerante impede o amadurecimento espiritual e destrói pontes necessárias à comunhão. Paulo adverte Timóteo contra “questões tolas e sem instrução”, pois elas “produzem contendas” (2 Tm 2.23). O servo do Senhor, diz o apóstolo, “não deve andar metido em brigas, mas ser manso para com todos, apto para ensinar, paciente” (2 Tm 2.24).

 

A cultura do cancelamento, tão comum nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp, é a expressão moderna dessa contenda estéril. Cancela-se o outro não para proteger a verdade, mas para evitar o esforço da escuta intencional. No entanto, a Escritura nos chama a “preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef 4.3), não no vínculo da unanimidade forçada.

 

A fé acima da ideologia

 

Visões ideológicas distintas podem - e devem - enriquecer o debate entre cristãos, desde que a causa maior seja preservada: a fé em Cristo e a defesa do evangelho e sua propagação. O debate cristão não existe para aniquilar o outro, mas para edificar o Corpo. Discordar não é cancelar; é reconhecer que ninguém detém sozinho a totalidade da verdade.

 

Alguns princípios se impõem como urgentes para nós:

 

- Ouvir, não para reagir, mas para interagir.

- Discordar com amor e espírito de brandura.

- Buscar sabedoria, não vitória retórica.

- Evitar o radicalismo que transforma irmãos em inimigos.

- Focar no que nos une, não apenas no que nos divide.

- Reconhecer, com humildade, que não temos todas as respostas.

 

Os 12 apóstolos: diversidade desde a origem da Igreja

 

Essa dinâmica não é nova. Ela está presente desde o nascimento da Igreja. Jesus não escolheu doze homens iguais, mas doze homens profundamente diferentes, social, cultural e, possivelmente, ideologicamente divergentes.

 

A maioria deles vinha da classe trabalhadora da Galileia. Eram pescadores, trabalhadores, homens práticos, ligados à tradição e, em muitos casos, a uma expectativa messiânica nacionalista que havia sido imposta durante o chamado período de quatro séculos de silêncio profético de Malaquias a João Batista. De modo especial o nacionalismo se exacerbava devido à submissão forçada ao domínio romano.

 

Pedro, impulsivo e temperamental, revela seu zelo ao sacar a espada no Getsêmani. André demonstra uma espiritualidade simples, voltada à busca sincera do Messias. Tiago e João, os “filhos do trovão”, carregavam um espírito zeloso, por vezes exclusivista, possessivo e briguento.

 

Em contraste gritante, Mateus, o publicano, representava o colaboracionismo pró-Roma, odiado por seus compatriotas judeus. Do outro lado do espectro estava Simão, o Zelote, ligado a um movimento político-militar radical, defensor da rebelião armada contra o Império. Em qualquer cenário humano, esses dois jamais dividiriam a mesma mesa - quanto mais o mesmo ministério apostólico.

 

Havia ainda os céticos e analíticos. Tomé exigia evidências; Filipe pensava em termos logísticos e materiais. Natanael era um estudioso das Escrituras, inicialmente carregado de preconceitos regionais. Outros, como Tiago, filho de Alfeu, permanecem quase anônimos, lembrando que nem todos ocupam o mesmo espaço de visibilidade na obra de Deus.

 

Judas Tadeu questionava os métodos de Jesus e seu impacto público. Judas Iscariotes, o único da Judeia do Sul, administrava as finanças e se frustrou ao perceber que o Reino anunciado não se conformava aos moldes políticos terremos por ele e por muitos esperado. Sua tragédia não foi apenas moral, mas teológica: esperava um Messias que Jesus nunca prometeu ser.

 

Mesmo assim, foi com esse grupo diverso, tenso e imperfeito que Cristo lançou os fundamentos da Igreja. O Pentecostes não eliminou suas diferenças; redirecionou-as para um propósito maior.

 

O caminho mais difícil, é o caminho cristão

 

Cancelar é fácil. Dialogar é custoso. O primeiro exige indignação; o segundo, maturidade. A Igreja é chamada a escolher o caminho mais difícil, porém mais fiel ao evangelho, por ser regado pelo amor mútuo e a mutualidade no compartilhar.

Num mundo caótico e polarizado, a diversidade de pensamentos não é fraqueza, mas oportunidade. Ao ouvir o outro, ampliamos nossa visão; ao dialogar, fortalecemos nossa comunhão; ao rejeitar o radicalismo, testemunhamos a sabedoria que vem do alto.

 

A unidade na diversidade não é concessão. É princípio bíblico, prática apostólica e sinal visível de que Cristo continua vivo em seu Corpo. Diante disso, a pergunta permanece: cancelar ou dialogar?

A fé cristã já deu sua resposta.

 

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