Levar pessoas a Jesus: Entre a nobreza da salvação e o escândalo da distorção
- Carlos Moraes

- há 4 dias
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A tarefa mais nobre confiada por Cristo ao seu povo desde o início da história da Igreja, é levar às pessoas, a mensagem do evangelho que as leva a Ele. Desde o início, o Novo Testamento, apresenta homens e mulheres que, alcançados pela fé em Cristo, compreenderam que não poderiam guardar essa descoberta apenas para si. Assim, levar outras pessoas a Jesus é, em essência, participar do movimento gracioso de Deus em direção à humanidade perdida, apresentando o evangelho que leva à reconciliação com Deus, dá a salvação e a segurança eterna. Essa é a missão da Igreja.
Exemplos de pessoas que levaram outras a Jesus
Os quatro evangelhos, Mateus, Marcos, Lucas e João, apresentam muitos personagens que atuam como “pontes” conduzindo pessoas a Cristo. O primeiro, cronologicamente, foi João Batista que, ao reconhecer Jesus Cristo como o Cordeiro de Deus, faz a transição e direciona seus discípulos a Ele, dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Como precursor profético do Messias, João Batista compreendeu que sua missão não era buscar seguidores para si, mas conduzi-los ao verdadeiro Salvador (Jo 1.30-36).
Da mesma forma, Filipe de Betsaida, após encontrar o Messias, procura Natanael e lhe diz: “Achamos aquele de quem Moisés escreveu na Lei” (Jo 1.45), finalizando com o célebre convite: “Vem e vê” (Jo 1.46).
Esse padrão, de levar pessoas a Cristo, se repete em Atos dos Apóstolos. O outro Filipe, diácono e missionário, sensível à direção do Espírito Santo, explica as Escrituras ao eunuco etíope e o leva a Cristo a partir de Isaías 53: “Então, Filipe, abrindo a boca, e começando nesta Escritura, anunciou-lhe Jesus” (At 8.35).
Pedro, por sua vez, que pregou no Pentecostes, no dia em que cerca de três mil pessoas se converteram, também foi usado para levar Cornélio e toda a sua família à fé em Cristo, deixando claro que a salvação não está restrita a um grupo étnico ou religioso: “Todo aquele que nele crê recebe remissão dos pecados” (At 10.43).
O apóstolo Paulo amplia ainda mais esse horizonte e continua levando pessoas a Cristo. Suas viagens missionárias - registradas em Atos 13 a 28 - mostram centenas, talvez milhares de pessoas sendo conduzidas a Jesus em cidades como Antioquia da Pisídia (At 13.48), Filipos (At 16.30-34), Corinto (At 18.8), Éfeso (At 19.18-20), e em muitas outras cidades, até finalizar em Roma, quando foi preso e levado para a capital do Império. Em todos esses contextos, o centro da mensagem era sempre o mesmo, levar pessoa a Jesus Cristo, apresentando-o como aquele que foi crucificado, morreu pelos nossos pecados, mas ressuscitou, mostrando que a morte não é o fim e que, nele há salvação para os pecadores (1Co 1.23; 15.3-4).
Os exemplos de levar pessoas a Jesus Cristo para a salvação, por todo o Novo Testamento, revelam um princípio fundamental: todos os meios lícitos, éticos e bíblicos podem ser usados para levar pessoas a Jesus Cristo como Salvador.
Quando levar pessoas a Jesus se torna um ato de desonra
Entretanto, o Novo Testamento também nos apresenta um exemplo sombrio e profundamente perturbador: Judas Iscariotes. Ele também levou pessoas a Cristo - mas não para a salvação. Judas guiou uma multidão armada até o Senhor para entregá-lo à morte: “Judas, que o traía, ia adiante deles” (Lc 22.47; cf. Mt 26.47; Mc 14.43).
O contraste é chocante. Enquanto uns conduzem pessoas a Jesus para que encontrem vida, Judas o faz para destruí-lo. Ele não apresenta Jesus como Messias, mas como um obstáculo a ser eliminado. Aqui está um alerta perene: é possível levar pessoas a Jesus de forma errada, produzindo escândalo, confusão e ruína espiritual.
Por todo o Novo Testamento encontramos relatos de indivíduos que mancharam o nome de Cristo, e distorceram o evangelho para ganho pessoal, poder ou por falsa doutrina. Esses exemplos servem como alertas a todos nós para não levarmos pessoas a Jesus de modo errado.
Para mencionar apenas alguns:
O mágico Simão, em Samaria (Atos 8.9-24) que ficou impressionado com os milagres realizados pela imposição de mãos dos apóstolos, e ofereceu dinheiro a Pedro e João para comprar esse poder.
Houve muitos falsos apóstolos e ensinadores mencionados nas cartas de Paulo, pessoas que pregavam um "evangelho diferente" para benefício próprio ou para criar divisão, como o caso da dupla, Himeneu e Alexandre (1 Timóteo 1.19-20), dos quais Paulo diz que abandonaram a boa consciência e naufragaram na fé, sendo entregues a Satanás.
Paulo falou também de pregação por ambição (Filipenses 1.15-17), e alguns que pregavam Cristo por inveja, rivalidade e interesses pessoais, e não com sinceridade.
Pedro menciona falsos mestres (2 Pedro 2.1-3) movidos por cobiça e explorando os fiéis com palavras inventadas.
João falou de Diótrefes (3 João 1.9-10), que abusava do poder e amava "ter a primazia" na igreja, recusando receber o apóstolo João, e espalhando palavras maliciosas contra ele, além de proibir outros irmãos de acolher os missionários, expulsando-os da igreja.
O perigo contemporâneo
Esse perigo não ficou restrito ao primeiro século. Ainda hoje, muitos levam pessoas a Jesus - mas não para apresentá-lo como Salvador eterno. Em diversos contextos contemporâneos, Cristo é apresentado não como o Senhor que chama ao arrependimento e à fé, mas como um meio para outros fins: prosperidade financeira, poder político, controle ideológico ou exaltação de líderes carismáticos. Nesses ambientes, pouco se fala de eternidade, pecado, cruz ou regeneração. Jesus é reduzido a um solucionador imediato de problemas ou, pior, a um instrumento a serviço de projetos humanos. Como advertiu o apóstolo Paulo: “Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina” (2Tm 4.3).
Há líderes que levam pessoas a Jesus para que se escandalizem dele, apresentando-o como um déspota que negocia bênçãos, como um chefe de império terreno ou até mesmo como legitimador de violência, cruzadas e projetos de dominação.
Há até mesmo quem imagine, de maneira profundamente anticristã, que é possível construir uma “nação modelo” aprovando leis e fazendo com que as práticas dos incrédulos sejam mudadas a fim de que eles sejam parecidos com pessoas do Reino de Deus que, na verdade, nem é deste mundo (Jo 18.36).
O contraste é decisivo
O contraste, portanto, é claro e inevitável. De um lado, estão aqueles que levam pessoas a Jesus como Salvador eterno, proclamando: “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo” (At 16.31). Do outro, estão os que levam pessoas a Jesus como se Ele fosse um serviçal atendendo interesses humanos, um meio para enriquecer líderes, manter ou criar estruturas de poder ou até justificar ideologias políticas. Esses não anunciam o Cristo bíblico, nem o evangelho da Graça. Levam pessoas a outro “Jesus”, contra o qual Paulo já advertia a igreja (2Co 11.4).
Levar pessoas a Jesus Cristo é, sem dúvida, uma missão nobre. Mas essa nobreza só se preserva quando Cristo é apresentado como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, Senhor ressuscitado, único mediador entre Deus e os homens (Jo 1.29; At 2.36; 1Tm 2.5).
Qualquer tentativa de reduzi-lo a instrumento humano transforma uma missão santa em um grave escândalo espiritual.







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